Stephen Crowley/The New York Times
Stephen Crowley/The New York Times

Jogo de sombras

Confusão causada por decreto que proibiu entrada de refugiados faz parte do espaço nebuloso de desinformação no qual operam Trump e Bannon

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

05 Fevereiro 2017 | 03h00

A confusão causada pelo decreto do dia 27, que proibiu a entrada de refugiados nos Estados Unidos, não é o efeito colateral de uma medida precipitada. Ao contrário. É parte de um método de trabalho, de uma estratégia de propaganda e de gestão. E tem as digitais de Stephen Bannon, o estrategista de campanha de Donald Trump, agora seu conselheiro na Casa Branca. E do próprio Trump, claro, do qual Bannon se converteu numa espécie de alter ego. 

O decreto proibiu a entrada de refugiados de qualquer país por 120 dias, de visitantes sírios por tempo indeterminado e de outros seis países muçulmanos (Irã, Iraque, Líbia, Somália, Sudão e Iêmen) por 90 dias ou mais. A lista dos sete países foi criada pelo governo anterior, de Barack Obama, que os enumerou como os que representam ameaça de terrorismo.

Seguiu-se uma bagunça nos aeroportos e fronteiras terrestres, porque não estava claro se aquilo incluía estrangeiros com green card (residência), estudantes e trabalhadores com vistos. Enquanto os funcionários da Imigração aplicavam a lei segundo suas preferências, autoridades do governo batiam cabeça na sua interpretação. Até que juízes federais começaram a conceder liminares que garantiam os direitos de refugiados e demais estrangeiros, com base em uma lei de 1965 e na Constituição, que impedem discriminação por raça, religião e origem.

Daqui em diante veremos muitas confusões assim, porque é nesse espaço nebuloso da desinformação que Trump e Bannon operam. Informação é poder. Se você é claro e transparente nas suas intenções, coloca seu interlocutor no mesmo patamar que você. Se você é opaco e esconde deliberadamente a informação, pode manipular, calibrar suas posições de acordo com a reação dos outros, e introduzir um clima de insegurança no qual as pessoas se tornam dependentes de seus próximos passos e estão sempre ocupadas reagindo a suas iniciativas.

Em seu livro Trump – a Arte da Negociação, de 1987, o agora presidente dá lições a empresários de como usar a imprensa com anúncios de empreendimentos bombásticos – mesmo sabendo que eles jamais serão realizados, pelo menos com a dimensão anunciada. Trump vê a imprensa – e agora as redes sociais – como um animal insaciável, que sempre corre atrás de você, se continuar abanando com um pedaço de carne – no caso, uma “notícia” fora do comum.

Bannon somou a essa estratégia sua experiência no site Breitbart News, que publica propagandas nacionalistas e ultraconservadoras com embalagem de “notícias”. E também um ímpeto de se tornar influente por meio da ruptura e da falta de limites. A revista Time conta que ele disse uma vez que se considerava parecido com Vladimir Lenin, o líder revolucionário russo, por sua disposição de “fazer tudo desmoronar, e destruir todo o establishment atual”. Há muitas outras referências dessa natureza sobre ele, e basta acessar seu bem-sucedido site para constatar como isso se dá na prática.

Bannon tem feito parte de todas as reuniões e decisões importantes na Casa Branca. Trump reestruturou no dia 28 o Conselho de Segurança Nacional para dar-lhe um assento. No mesmo decreto, ele definiu que o diretor de Inteligência Nacional e os comandantes das Forças Armadas não deverão mais comparecer a todas as reuniões do Conselho, mas apenas àquelas em que forem necessários.

Combinados, os dois gestos indicam que o critério prioritário na tomada de decisões nas políticas externa e de defesa passa a ser o impacto propagandístico – a especialidade de Bannon –, em detrimento da informação e do julgamento profissional. Logo depois de eleito, Trump não escondeu sua preguiça dos briefings com diretores da área de inteligência.

Parece contraditório com sua imagem de empresário que valoriza os aspectos técnicos da gestão. Mas Trump não é esse tipo de empresário. Intuição e imagem são mais importantes, para ele, do que esses componentes racionais. Os Estados Unidos dão início a uma arriscada experimentação.

 

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