Jim Lo Scalzo/EFE/EPA
Jim Lo Scalzo/EFE/EPA

John Kerry passa a ser o homem forte de Biden para o clima

Experiente e reconhecido por líderes mundiais, diplomata terá um assento no Conselho de Segurança Nacional

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2020 | 22h55

Com a escolha de John Kerry como representante especial para o clima, o presidente eleito Joe Biden deu um sinal de que a questão será central em sua política externa.

Kerry, um diplomata experiente e reconhecido por líderes mundiais,  terá um assento no Conselho de Segurança Nacional na Casa Branca, disse a equipe de transição, marcando a primeira vez que um oficial do órgão será dedicado à questão climática. 

A nomeação de Kerry não requer confirmação do Senado dos EUA. Ele deve trabalhar com um contraparte na Casa Branca, responsável pelas questões climáticas domésticas, que deve ser anunciado em breve.

O diplomata deve consagrar o retorno dos EUA ao Acordo de Paris, cumprindo uma das promessas de Biden -- reverter decisões e políticas climáticas de Trump, que desmantelou as regulamentações da era Obama para impulsionar a perfuração, a mineração e a manufatura.

Foi o próprio Kerry, na época secretário de Estado de Barack Obama, que em 2015 assinou em nome dos Estados Unidos o Acordo de Paris. Ele também foi responsável por oficializar o acordo nuclear iraniano -- do qual os EUA também se retiraram sob o governo Trump. 

Biden prometeu promover a volta do país ao Acordo de Paris assim que assumir a presidência, em 20 de janeiro.

"Volto ao governo para recolocar os Estados Unidos no caminho certo diante do maior desafio que esta geração e as próximas enfrentarão", declarou Kerry no Twitter, prometendo "lidar com a crise climática como a urgente ameaça à segurança nacional que é".

Kerry, de 76 anos, é um dos principais nomes do Partido Democrata. Dois anos mais jovem que Biden, foi secretário de Estado, tentou sem sucesso vencer as eleições presidenciais em 2004 e, em seus 28 anos como senador, caracterizou-se pelo interesse em relações exteriores.

Deixou o cargo de secretário de Estado em janeiro de 2017, quando Trump tomou posse. O clima sempre foi um de seus assuntos prediletos.

Um ano depois, lançou uma aliança batizada de "Guerra Mundial Zero", com outras personalidades, contra a mudança climática.

"Nenhum país faz seu trabalho" sobre o clima, criticou Kerry na época. "Temos que tratar esse assunto como uma guerra".

Cada ano de descaso durante a presidência de Trump complicou essa 'guerra'. A emissão de gases de efeito estufa nos Estados Unidos está diminuindo devido ao uso crescente de energia renovável e à pandemia. No entanto, isso não está acontecendo na velocidade necessária para atingir a meta proclamada por Biden: atingir a neutralidade absoluta em carbono até 2050.

Ter palavra

Quando o Acordo de Paris foi assinado, em dezembro de 2015, a ideia de um mundo neutro em carbono em 35 anos parecia tão radical que nem constava no texto. A neutralidade em carbono significa que os resíduos das emissões de carbono são neutralizados por sistemas de absorção.

Contudo, em cinco anos, muitos países e a União Europeia estabeleceram uma meta a atingir até 2050.

A China anunciou em setembro que a alcançaria em 2060, não sem criticar a inconsistência dos Estados Unidos, o segundo maior emissor mundial de gases poluentes.

Kerry terá que reconquistar a confiança dos parceiros dos Estados Unidos e provar que o acordo de Paris, enfraquecido por Trump, estava no caminho certo.

O acordo não impõe medidas aos signatários. O texto pede que os países definam suas metas para si mesmos, respeitem-as e, por fim, aumentem-nas. Essa fórmula não coercitiva é, ao mesmo tempo, a força e a fraqueza do acordo, pois depende da boa vontade de cada país.

Kerry é experiente em missões diplomáticas perigosas. Além do clima e do Irã, ele negociou com a Rússia um acordo sobre armas químicas na Síria.

O presidente Barack Obama o enviou a Islamabad em 2011 para tentar apaziguar parceiros paquistaneses insatisfeitos porque Washington não os informou sobre o ataque aéreo que resultou com a morte de Osama bin Laden.

Alto, esguio, francófono, Kerry gosta de contatos pessoais, apertos de mão, tapinhas nas costas dos interlocutores, gestos sempre bem recebidos na diplomacia.

O tempo, porém, é curto. A partir de 20 de janeiro, o governo Biden deve mostrar ao mundo seu plano climático com os olhos postos na conferência COP26 que a ONU realizará em Glasgow em novembro de 2021. /AFP e REUTERS

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