John Kerry substituirá Hillary em chancelaria

Obama queria Susan Rice, vetada por senadores, como secretária de Estado

DENISE CHRISPIM MARIN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2012 | 02h02

O presidente dos EUA, Barack Obama, anunciou ontem a escolha do senador John Kerry para conduzir o Departamento de Estado durante seu segundo mandato. Kerry, de 69 anos, foi a segunda opção de Obama. Sua preferência pela embaixadora dos EUA nas Nações Unidas, Susan Rice, foi repudiada pelos dois partidos no Senado. Kerry assumirá o posto ocupado por Hillary Clinton, potencial candidata à presidência em 2016.

Na rápida cerimônia de ontem, Hillary foi a principal ausência. O próprio Obama encarregou-se de explicá-la: a secretária ainda se recupera de um desmaio sofrido no último final de semana. Obama afirmou que os EUA ingressam em uma "nova era de liderança", com o fim da guerra do Iraque, a debilitação da Al-Qaeda e a perspectiva de fim do conflito no Afeganistão. Mencionou a construção de parcerias na Ásia e a necessidade de enfrentar desafios globais. Não falou de Europa e América Latina. "O senador Kerry teve papel central nos debates sobre política exterior nos últimos 30 anos. Ele adquiriu respeito e confiança de líderes de todo o mundo", afirmou.

Para Peter Hakim, presidente honorário do Diálogo Interamericano, teria sido politicamente difícil para Obama não escolhê-lo. Não só pela experiência de Kerry, mas porque ele queria o posto e não seria fácil aprovar outro nome no Comitê de Relações Exteriores do Senado, órgão que ele ainda preside.

"O presidente não precisa de um bom negociador como secretário de Estado. Há um monte deles no Departamento. O que ele precisa é de um bom representante. Obama não está comprometido em desenhar uma grande estratégia de política exterior para seu segundo mandato. Ele não tem essa ambição", afirmou Hakim. "Kerry será um executor da política, não um formulador. Hillary não foi formuladora, tampouco, mas ela tem uma dose alta de carisma e fortes convicções. Kerry não tem", completou.

Críticos do senador no Departamento de Estado e na Casa Branca o veem como uma pessoa arrogante, distante de suas equipes de trabalho e com falta de traquejo para lidar com interlocutores. Apesar disso, seu currículo o habilita a liderar da diplomacia americana.

Kerry aproximou-se do novato Barack Obama no Senado. Em 2004, quando concorreu à Casa Branca como candidato democrata - foi derrotado por George W. Bush -, Kerry escolheu Obama para fazer o principal discurso da convenção do partido, o que deu ao jovem político a projeção necessária para candidatar-se em 2008. O presidente referiu-se ontem a Kerry, que passou a dedicar à defesa de causas ambientais, como "um grande amigo".

O senador tem sido um fiel conselheiro do presidente em temas de política exterior. Mas também cumpriu uma tarefa inusitada, recordada ontem por Obama no anúncio: desempenhar o papel do republicano Mitt Romney nos treinos do presidente para os debates da campanha eleitoral.

Em 2009, como enviado especial de Obama, Kerry conseguiu convencer o presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, a realizar o segundo turno da eleição presidencial. O primeiro fora maculado por acusações de fraudes e intimidação de eleitores. Kerry também negociou com o governo paquistanês a libertação de um agente da CIA preso no país sob a acusação de assassinato e a devolução, aos EUA, da ferragem de um helicóptero usado na execução de Osama Bin Laden.

O senador foi a primeira autoridade americana a reunir-se com Mohamed Morsi, depois de sua eleição para a presidência do Egito. Desde 2009, Kerry atua como presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado e, nessa função, contribuiu para a aprovação do tratado entre EUA e Rússia para a redução de arsenais atômicos. Eleito sucessivamente para o Senado Federal pelo Estado de Massachusetts desde 1985, Kerry é veterano da Guerra do Vietnã e notabilizou-se por liderar grupos favoráveis ao fim do conflito, nos anos 70. Ele é casado com a milionária moçambicana Teresa Simões Ferreira, de 74 anos.

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