Ben Stansall / Reuters
Ben Stansall / Reuters

Johnson avança sobre classe operária e redutos da esquerda britânica

Premiê conservador faz campanha em pátio de fábrica, corre atrás de frango em fazenda, segura peixe na feira e conquista voto de regiões do Reino Unido que sempre foram fiéis ao Partido Trabalhista, construindo maioria confortável no Parlamento

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2019 | 05h00

LONDRES - Blyth Valley, comunidade de mineradores no nordeste da Inglaterra, caiu nas mãos do Partido Conservador pouco antes da meia-noite. Wrexham, reduto trabalhista por mais de 80 anos, elegeu um deputado conservador já na madrugada de sexta-feira. Great Grimsby, um porto decadente no norte do país, que votava na esquerda desde a 2.ª Guerra, também sucumbiu à onda azul de Boris Johnson. Quando amanheceu, estava evidente que a política britânica havia mudado.

Claire Ainsley, analista da Joseph Rowntree Foundation, diz que há anos os trabalhistas vêm perdendo o voto da classe operária britânica. “Isso vem acontecendo pelo menos desde 1990. O fenômeno desta eleição é que o declínio se tornou mais acentuado e os conservadores estão conseguindo afastá-los do Partido Trabalhista”, disse Claire ao jornal The Sun.

Nas últimas semanas de campanha, Johnson investiu em redutos históricos da esquerda em Midlands e no norte da Inglaterra, prometendo defender o sistema de saúde público e cortar impostos para assalariados de baixa renda. Deu certo. Segundo o instituto YouGov, a esquerda perdeu uma boa parte da classe operária desde a última eleição, em 2017 – dos 44% que votaram nos trabalhistas, apenas 30% repetiram o voto agora.

A fuga dos eleitores já podia ser sentida no plebiscito do Brexit, em 2016, quando 62% da classe operária votou pela saída do Reino Unido da União Europeia. A decadência econômica e a sensação de terem sido abandonados pelo Estado se encaixaram no discurso populista de Johnson, que durante a reta final da campanha, nas últimas duas semanas, foi visto pelo interior do país em fábricas de pneus, cercando frango, preparando tortas, segurando peixe no mercado de Grimsby e vendendo doce na feira.

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Do outro lado, Johnson foi ajudado por um Partido Trabalhista cada vez mais sem identidade com os trabalhadores. Um estudo recente da University College London mostrou que, nos anos 20, sete a cada dez candidatos trabalhistas vinham da classe operária. Hoje, apenas um vem da base.

A posição ambígua do líder trabalhista, Jeremy Corbyn, que não definiu uma posição clara sobre o Brexit, também foi fatal para a esquerda no Reino Unido. “O Partido Trabalhista de hoje não se parece em nada com o trabalhismo que a maioria dos operários conheceu”, afirmou Esther McVey, deputada conservadora.

A opinião de McVey é compartilhada por um adversário histórico, Alan Johnson, ex-secretário do Interior do governo trabalhista de Gordon Brown. “Corbyn foi um desastre logo de cara. Todo mundo sabia que ele não conseguiria conduzir a classe operária nem para fora de uma sacola de papel”, disse o ex-secretário durante um programa de debates na ITV, após a eleição de quinta-feira.

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“O partido precisa escutar. Senão, vai morrer”, disse Ian Murray, único deputado trabalhista eleito na Escócia, que pediu a saída de Corbyn. “Para o bem do país, não só o líder tem de ir embora. A ideologia também.”

Esta semana, o Partido Conservador saiu das urnas com uma maioria confortável de 39 deputados. A bancada cresceu 66 cadeiras, chegando a 365 – o melhor resultado do partido desde Margaret Thatcher, em 1987. Os trabalhistas tiveram o pior desempenho desde 1935, perdendo 42 deputados e com uma bancada reduzida a 203.

Com poder no Parlamento, Boris Johnson terá agora caminho livre para aprovar sua agenda política, incluindo restrições de imigração, um novo orçamento e a conclusão de tratados de livre-comércio, especialmente com EUA, Austrália, Nova Zelândia e Japão, que substituiriam as perdas com o mercado europeu.

Seu governo, no entanto, não pode perder tempo. O Reino Unido já enfrenta a saída de empresas por causa do Brexit. Elas buscaram refúgio na Europa, especialmente em Paris, Amsterdã, Frankfurt e Dublin. Segundo dados oficiais, até abril, os bancos já haviam retirado do país US$ 1 trilhão e as companhias de seguro e de gestão de ativos haviam transferido US$ 130 bilhões. 

No longo prazo, conciliar os interesses do mercado financeiro e da classe operária pode se tornar uma estratégia incompatível. Segundo muitos analistas, os conservadores sabem que o voto dos trabalhadores tem prazo de validade. “Johnson tem duas tarefas agora. Primeiro, conseguir um bom acordo comercial com a União Europeia. Depois, aprovar suas ideias no Parlamento”, afirmou Jill Rutter, do Institute for Government, que monitora as ações do governo. “Mas ele tem de fazer alguma coisa logo.” / CÉLIA FROUFE, COM AGÊNCIAS

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