Jessica Taylor/Casa dos Comuns/AP
Jessica Taylor/Casa dos Comuns/AP

Johnson diz que não pedirá adiamento do Brexit, mesmo se não houver acordo

Parlamento aprovou lei que obriga premiê a negociar nova data se não houver pacto para saída da União Europeia

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2019 | 20h33

LONDRES  - Em um discurso ao Parlamento britânico – que retomou suas atividades nesta quarta-feira, 25, após ser suspenso pelo primeiro-ministro – Boris Johnson disse que não buscará um adiamento do Brexit mesmo com a lei aprovada recentemente que o força a fazê-lo. 

O discurso marcou uma contradição com declarações anteriores do premiê, nas quais ele prometia que cumpriria a lei e o Reino Unido deixaria a União Europeia na data prevista – 31 de outubro. Segundo a legislação aprovada pelos partidos de oposição antes da suspensão do Parlamento, o governo é obrigado a pedir um adiamento à saída bloco se um acordo de separação não for alcançado com Bruxelas até o dia 19 de outubro.

Questionado no Parlamento se ele poderia buscar extensão para o dia 31 de janeiro, ele respondeu que não. 

Na tensa sessão no Parlamento, um primeiro-ministro irredutível desafiou os gritos de “renúncia” de seus adversários um dia depois de a Suprema Corte do país considerar ilegal a suspensão dos trabalhos dos parlamentares. Entre gritos, gestos raivosos e repetidas chamadas de “ordem” na Câmara dos Comuns, Johnson defendeu enfaticamente seus esforços para retirar o Reino Unido do bloco como previsto, com ou sem acordo.

“Eu digo que é hora de fazer o Brexit”, declarou, acusando seus oponentes de tentar frustrar o desejo dos britânicos, que em 2016 votaram em maioria – 51% – a favor de deixar o bloco.

O líder do principal partido de oposição, o Trabalhista, Jeremy Corbyn, afirmou que Johnson não está mais apto para governar e deveria ter a “honra de renunciar”. 

Em um momento durante seu inflamado discurso, Johnson recorreu à memória da deputada trabalhista Jo Cox, assassinada uma semana antes do referendo do Brexit, em 2016. Na época, o neonazista Thomas Mair, de 53 anos, atirou e esfaqueou a política de 41 anos, mãe de dois filhos pequenos, no distrito eleitoral dela em um crime que chocou o Reino Unido. O assassino foi condenado à prisão perpétua. “A melhor maneira de honrar a memória de Jo Cox e fazer o país se unir de novo é realizando o Brexit”, disse Johnson, sobre a parlamentar, que fazia campanha pela permanência de seu país no bloco. 

A referência à deputada irritou ainda mais seus colegas da oposição e muitos consideraram um ultraje o primeiro-ministro fazer tal menção. Colegas de Jo Cox e seu viúvo postaram mensagens de indignação nas redes sociais. 

Os membros do Parlamento acusam o premiê de desrespeito às regras jurídicas e de enganar a rainha Elizabeth II quando pediu que ela autorizasse a suspensão do Parlamento. Desde então, eles têm pressionado para que Johnson se desculpe, o que tem sido completamente ignorado pelo premiê, que disse discordar do entendimento da Suprema Corte que considerou a suspensão do Parlamento ilegal. 

O primeiro-ministro defende que uma nova eleição é a única maneira de desbloquear o paralisado Parlamento britânico. “As pessoas desse país já tiveram o suficiente. O Parlamento deveria sair do caminho e deixar esse governo resolver o Brexit ou votar uma moção de confiança e fazer um acerto de contas com os eleitores”, disse.

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Uma moção de não confiança derrubaria o governo apenas dois meses após seu início e levaria a novas eleições. Mas a oposição e alguns conservadores rebeldes afirmam que apoiarão novas eleições apenas se não houver um acordo com Bruxelas. 

Johnson quer convocar eleições legislativas antecipadas, pois perdeu a maioria absoluta após a rebelião de 21 de seus deputados conservadores. O primeiro-ministro afirma ter intensificado as negociações com a UE em busca de um acordo, mas os líderes europeus dizem que o Reino Unido não apresentou nenhuma proposta viável e se declaram pessimistas. 

Em uma entrevista a ITV após a sessão no Parlamento, Johnson disse que a União Europeia prometeu avançar na espinhosa negociação sobre o backstop - mecanismo que impede o retorno de uma fronteira dura entre Irlanda e Irlanda do Norte após o Brexit. A questão tem sido o principal entrave nas negociações com Bruxelas. / REUTERS, AFP e AP 

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