Adriana Loureiro Fernandez/NYT
Adriana Loureiro Fernandez/NYT

Joias vindas do mar aliviam penúria em vila venezuelana

Moradores de Guaca, localidade onde a indústria pesqueira quebrou, trocam peças do misterioso tesouro surgido na areia por alimentos

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2020 | 20h20

GUACA, VENEZUELA - O momento mais extraordinário na vida do jovem pescador aconteceu de maneira prosaica: indo de manhã ao banheiro. Ao retornar para sua cabana, na costa caribenha da Venezuela, Yolman Lares viu algo brilhando na praia. Revolvendo a areia, se deparou com um medalhão de ouro com a imagem da Virgem Maria.

O vilarejo de Guaca antigamente era um centro da indústria de processamento de pescados da Venezuela. Hoje está reduzido à miséria diante da falta de gasolina e o fechamento das pequenas fábricas. Em meio a essa penúria, a descoberta foi considerada um milagre. “Comecei a tremer, gritava de alegria. Foi a primeira vez que algo tão especial me aconteceu.”

Lares contou o fato para seu sogro, também pescador. Logo a maioria dos dois mil moradores começou uma frenética caça ao tesouro, examinando cada milímetro da praia, escavando em torno dos barcos de pesca dilapidados e até dormindo na areia para proteger seus poucos metros quadrados de areia e a fortuna inaudita que estaria embaixo.

Desde fins de setembro, encontraram centenas de peças de ouro e joias, ornamentos de prata e moedas de ouro trazidos pelo mar e depositados na praia.

Dezenas de moradores disseram ter descoberto pelo menos um objeto precioso, como um anel de ouro, com notícias não confirmadas de que alguns venderam seus achados por US$ 1.500. “É uma determinação de Deus”, disse Ciro Quijada, trabalhador de uma pequena fábrica pesqueira local.

Ninguém sabe de onde veio o ouro e como acabou espalhado pelas poucas centenas de metros da estreita praia. O mistério se fundiu com folclore e as explicações também se inspiraram em lendas sobre piratas caribenhos, tradições cristãs e na desconfiança do governo autoritário da Venezuela.

A costa em torno de Guaca, na Península de Paria, foi onde, em 1498, Cristóvão Colombo colocou os pés, o primeiro europeu a pisar no continente sul-americano. Mais tarde, a região escassamente defendida foi atacada regularmente por piratas holandeses e franceses. Hoje é reduto de traficantes de combustível e de droga e piratas modernos que se aproveitam dos pescadores.

Uma tempestade teria rompido um cofre de tesouro pirata ou caído de uma fragata colonial que afundou? Ou o tesouro veio de traficantes modernos que se dirigiam para Trinidad? Durante semanas, Guaca foi dominada pelas especulações. Oponentes do governo diziam que as autoridades teriam espalhado o ouro para acalmar os protestos dos moradores contra suas condições de vida. Outros temiam que o governo enviasse soldados para confiscar seu tesouro.

Troca

Talvez nunca se saiba a origem do tesouro. Os habitantes do vilarejo quase imediatamente venderam os objetos descobertos para comprar comida. “Qualquer coisa que conseguirmos, vai direto para a boca”, disse Hernán Frontado, pescador e sogro de Lares, que tinha de implorar por um pouco de mandioca para os vizinhos para alimentar a família, antes de encontrar as peças de ouro.

Frontado vendeu as joias achadas em Carupano, a cidade mais próxima, por menos do que pensava que valiam para comprar arroz, farinha e massa. Guaca e os vilarejos em torno forneciam sardinhas e atum em lata para toda América Latina. Hoje, somente oito dos 30 depósitos rudimentares de sardinha estão operando. As fábricas de processamento de atum administradas pelo governo faliram.

Para conseguir gasolina para seus barcos, eles têm de vender metade da sua pesca de sardinhas para o governo a um preço equivalente a 1,5 centavo por quilo. O combustível ficou tão escasso este ano que os pescadores usam remos para navegar em mar aberto, ou passam dias no mar para economizar gasolina, enfrentando tempestades, a sede e piratas.

Lares, o primeiro a descobrir o ouro, conseguiu US$ 125 com a venda dos objetos. Usou o dinheiro para comprar alimentos. E comprou pão doce para os filhos – a primeira vez que eles comeram em anos. Consertou um aparelho de TV quebrado e comprou um alto-falante usado, propiciando à família algum lazer na casa com chão de terra sem encanamento interno e onde seis pessoas dividem uma cama.

O tesouro permitiu à família voltar a se alimentar duas vezes por dia. Sua filha mais nova, de dois anos, Thairy Lares, engordou, embora ainda esteja desnutrida. Ao entardecer, quando o mar está tranquilo, alguns moradores ainda são vistos sentados na praia, revolvendo a areia sob a luz que esvanece. /NYT, TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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