Jonas Savimbi, um carrasco implacável de seu país

Ele morreu, o "guerreiro da selva", o "filho do país", o "negro autêntico", um dos mais velhos e mais terríveis resistentes do mundo, em luta há trinta e seis anos contra os "cidadãos educados", os "descendentes do colonialismo" que reinam em Luanda - sob a presidência de Eduardo dos Santos.A questão é: a morte de Savimbi com quinze balas, duas delas na testa, vai colocar um fim na guerra que fez de Angola um país massacrado, com um milhão de civis mortos, uma terra diabólica com milhões de áreas minadas e quatro milhões de pessoas deslocadas, dos 12 milhões de angolanos?Figura complicadaNão tentaremos responder a essa pergunta. O mais sensato é lembrar o sangue derramado por Savimbi (ao qual corresponde o sangue derramado pelo regime de Luanda, não menos corrupto, não menos despótico que o poder do "homem da floresta", Savimbi).Savimbi era uma figura complicada. No início, não só celebrou "a autenticidade africana", mas também pegou em armas em 1965 para lutar contra Portugal (de Salazar), com a Frente de Libertação Nacional de Angola (FLNA), cujo chefe era então Holden Roberto. No ano seguinte, fundou a "Unita" (União Nacional pela Independência Total da Angola).Longa marchaComeça-se a suspeitar dele. Suspeita-se que era apoiado pela PIDE (polícia política portuguesa). Depois, em 1975, deu-se a "Revolução dos Cravos" em Lisboa, e Portugal deixa Angola aos pró-soviéticos do MLPA (até hoje no poder em Luanda).Savimbi parte para suas "terras no fim do mundo", em Jamba. É o início de sua "longa marcha", com 3 mil homens. O final da "longa marcha" não é original: apesar de seu "anti-marxismo" obstinado, Savimbi tinha feito um estágio na China no final da década de 60 e, na direção dos resistentes, aplica os preceitos de Mao Tsé Tung. Mas coloca esses preceitos a serviço do campo ocidental, contra os "vermelhos" de Luanda.Peão dos EUADesde então, Savimbi estará na disputa, em primeiro lugar na "guerra fria", em seguida na "nova ordem mundial". No início, os Estados Unidos entregam toneladas de armamentos. Savimbi torna-se um peão utilizado pelos Estados Unidos. Savimbi, esse "independentista" autêntico chega a aliar-se aos países do apartheid, à África do Sul.Reagan o batiza: "Combatente da liberdade". Isso não é falso, uma vez que o campo inimigo, o MLPA de Luanda, recebe o apoio de 50 mil barbudos cubanos. O muro de Berlim cai em 1989. O mundo está em paz. Em 1991, foi assinado um tratado de paz entre Savimbi e Luanda, sob a égide da ONU.Estorvo para o OcidenteHouve eleições. Savimbi estava certo de vencê-las. Ele perde, parecia muito arrogante, muito "revanchista". Não aceita seu fracasso. Volta para sua selva, e é a guerra total: cidades bombardeadas, montanhas de mortos, terror.O poder legal de Luanda estava na defensiva. Mas a comunidade internacional, que então estava livre da ameaça soviética, "mostra os dentes".DiamantesSavimbi, o maravilhoso Savimbi, o "cruzado" anti-marxista, de repente torna-se terrível para o Ocidente. A ajuda internacional lhe foi negada. Os Estados Unidos o colocam na categoria dos "violentos". Savimbi é um "pária". Mas esse "pária" ainda tem garras. Ele intensifica seu tráfico de diamantes, que lhe rende 500 milhões de dólares por ano, e esses dólares transformam-se em morte, em armas.No entanto, seu isolamento o enfraquece. Luanda lança contra ele uma guerra total. Savimbi luta, mas recua diante de todos os adversários. Sozinho no mato, continua a reinar. Mas seu reino é atroz: realiza "purgações" constantes em seu estado-maior.Cabeça excepcionalExige ser admirado como um gênio. E infelizmente ninguém se extasia diante de nenhuma de suas palavras. ê um guerreiro. Jamais recusou um combate. Mas ele não é apenas esse tirano cruel, banido da sociedade internacional desde o final do regime soviético.É também uma cabeça excepcional. Esse homem, que nasceu em 1934 e foi um dos únicos de sua etnia (os ovimbundos) a estudar em Lisboa sob o regime de Salazar e a se tornar médico, é fascinante.O jornalista português Pedro Rosa-Mendes o conhecia bem: "Jonas Savimbi é um dos seres mais inteligentes que já vi. Dispunha de uma força de convicção e de uma inteligência tática excepcionais...colocadas a serviço de uma sede de poder patológica".Grandes interessesNão devemos esquecer nessa litania do mal o papel desempenhado pelos ocidentais - seja a estupidez, seja a avidez. Passemos por Washington, que se aliou sucessivamente aos "maoístas" ferozes da UCK no Kosovo, e depois aos talebans de Cabul. Por que não teriam ajudado Savimbi, anti-marxista, antes de esmagá-lo?Mas não há apenas governos. Há, ainda mais, os grandes interesses da sociedade mercantil. Os comerciantes do diamante e, sobretudo, como sempre, os grandes "petroleiros" pressionaram sucessivamente um e outro campo, contribuindo para o sangue, mas também para o delírio paranóico em que essa pobre população mergulhou.E para que a distribuição dos prêmios "luciferianos" seja completa, não nos esqueçamos dos "derrubadores" de Savimbi: o governo de Luanda. É o outro lado de Savimbi, o cidadão evoluído e não o forasteiro e selvagem: fraudes, violências, mortes.DenúnciasEm 2001, Luanda conseguiu desviar 1,4 bilhão de dólares de receitas petrolíferas (informação dos ingleses do Global Witness). Os Médicos do Mundo diversas vezes denunciaram, há dez anos, o uso que Luanda faz da ajuda humanitária dada ao país - uma maneira de privar de alimentos o interior de Angola. Todo o mundo sabe disso. As Nações Unidas ficaram mudas.Esse foi o homem que morreu na sexta-feira. Esse é o país mártir. Essas são as potências obscuras da África ou do Ocidente que "atiçaram o fogo". E amanhã?

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