Jornais alegam sofrer censura após decisão da Justiça na Venezuela

Maioria dos periódicos foi proibido pela Justiça de mostrar imagens violentas por um mês

Claudia Jardim, BBC

18 de agosto de 2010 | 19h27

A decisão da Justiça venezuelana de proibir a publicação de imagens com cenas de violência nos jornais de todo o país desatou uma nova polêmica entre a imprensa e o governo de Hugo Chávez.    

 

Veja também:

linkChávez critica imprensa privada venezuelana por fotos de violência

A restrição foi anunciada pelo Tribunal de Mediação e Proteção de Crianças e Adolescentes após um pedido do Ministério Público e vale por um mês para a maioria dos jornais do país.

Na sua determinação, o Tribunal disse que os jornais venezuelanos "devem se abster de publicar imagens violentas, sangrentas, grotescas" que "fragilizem a integridade psíquica e moral" dos jovens venezuelanos.

Em protesto, o jornal El Nacional, conhecido por fazer oposição a Hugo Chávez, publicou na capa desta quarta-feira dois grandes quadros brancos no lugar de fotografias com a palavra "censurado".

Corpos em necrotério

No centro da polêmica, tanto o El Nacional como o jornal Tal Cual, também de oposição, foram proibidos pela Justiça de veicular imagens violentas por tempo indeterminado no seu conteúdo jornalístico e publicitário, recebendo uma punição que supera a imposta ao restante dos jornais do país.

O caso começou na sexta-feira, quando o El Nacional publicou na capa, em quatro colunas, uma fotografia com corpos amontoados em um necrotério de Caracas.

A fotografia, de arquivo, ilustrava uma reportagem que tratava dos altos índices de violência no país com título "Há atualmente no país 15 milhões de armas ilegais".

No sábado, o Ministério Público solicitou uma "medida de proteção" aos jovens, reagindo à publicação da fotografia.

O Tal Cual então publicou na primeira página, na segunda-feira, a mesma imagem polêmica do El Nacional, "em solidariedade" com o outro diário, como explicou Teodoro Petkoff, diretor do jornal, nesta quarta-feira.

Com o aumento da controvérsia, na terça-feira, o Tribunal de Mediação anunciou a proibição desse tipo de fotos, acatando pedido do Ministério Público.

Proteção

Para a promotora Gabriela Ramírez, a decisão do tribunal venezuelano visa "proteger" crianças e adolescentes e "o governo não tem nada a ver com isso".

"É simplesmente grotesco que estas imagens sejam usadas em meio à campanha (para as eleições legislativas de setembro), que (a violência) seja usada como bandeira política", disse ela.

Mas para Eliazar Díaz Rangel, diretor do jornal Ultimas Noticias - publicação que não é abertamente identificada como sendo opositora ou apoiadora de Chávez - a medida é "absurda", "sem sentido" e "desnecessária".

A seu ver, em situações como esta deve prevalecer a ética jornalística, e a decisão do Tribunal estabelece um mecanismo de "autocensura" na imprensa venezuelana.

"Toda a sentença é absurda e pela primeira vez, desde 1999, o Estado venezuelano dá motivos para que seja apontado como restritivo da liberdade de informar", escreveu Rangel em uma coluna publicada no Últimas Notícias desta quarta-feira.

Debate

A segurança pública - maior tema de preocupação entre os venezuelanos - têm sido o principal assunto de debate nos canais e jornais opositores da Venezuela.

Na noite da terça-feira, Chávez disse que assumia a responsabilidade pela insegurança, ao mesmo tempo em que responsabilizou os governadores opositores de não tomarem medidas para combater a criminalidade.

"A oposição anda dizendo que eu sou o responsável pela insegurança no país, está bem, eu assumo minha responsabilidade, mas onde estão os governadores (dos Estados)?", afirmou Chávez, durante reunião de Conselho de Ministros.

Na opinião de analistas, a insegurança é uma das maiores fraquezas do governo de Hugo Chávez, que trata a violência como um problema de exclusão social sob a lógica de combater suas causas, por meio de programas sociais de acesso à educação, trabalho e saúde.

Os números, no entanto, indicam que essas medidas são insuficientes.

Em 2008, foi registrada uma taxa média de 48 homicídios por cada 100 mil habitantes, uma das mais altas da região.

O governo contesta esses dados, mas não há divulgação oficial do índice de violência na Venezuela.    

 

BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.