Jornais travam uma luta por Nova York

Após comprar o ''Wall Street Journal' por US$ 5 bilhões, Murdoch investe pesado para superar o 'New York Times''

Ed Pilkington, The Guardian, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2010 | 00h00

Em 1950, quando Rupert Murdoch tinha 19 anos, ele foi levado por seu pai, Keith, para uma demorada viagem pelos EUA. Sendo um poderoso figurão da mídia australiana, o Murdoch mais velho conseguiu introduzir o filho em círculos ilustres. Houve uma audiência na Casa Branca, com Harry Truman, e um giro até Hillandale, a casa de veraneio em Connecticut da família Sulzberger, donos do New York Times.

Foi um momento definidor para o jovem Murdoch, que explica, segundo seu biógrafo Michael Wolff, sua obsessão pela Old Gray Lady (o NYT). "Naquela visita, seu pai lhe comunicou o fato de que os Sulzberger eram os proprietários do melhor jornal do mundo", diz Wolff. "Essa mensagem ainda o assombra hoje, pois Murdoch sabe que, se quiser garantir seu legado como o último e maior dono de jornal, terá de enfrentar o New York Times."

Ontem, Rupert Murdoch fez um novo lance para enfrentar o New York Times. O Wall Street Journal, jornal que ele adquiriu há 28 meses, lançou uma seção diária dedicada a atacar o jornal rival em seu próprio território: Nova York.

O lançamento da nova seção sobre Nova York do WSJ significa bem mais do que seu valor de face: uma média de 12 páginas por dia de política, esportes, artes, negócios e imóveis. É o começo de uma missão: abrir combate direto contra o que Murdoch classifica de jornalismo pomposo do NYT e roubar seu cetro de principal jornal do país.

Murdoch está investindo pesado. No momento em que outros jornais estão enxugando orçamentos e demitindo, ele está colocando US$ 15 milhões por ano na seção. Há muita especulação de que o WSJ tentará enfraquecer o NYT cobrando tarifas publicitárias com descontos - uma tática refinada na Grã-Bretanha -, embora o jornal negue.

Murdoch não fez nenhuma tentativa de esconder que o objetivo por trás da nova seção é prejudicar o NYT, ambição que ficou evidente antes mesmo de ele adquirir a Dow Jones, que controla o WSJ, por US$ 5 bilhões, em 2007. Essa disputa é pouco familiar no cenário jornalístico circunspecto de Nova York.

Com a aproximação do lançamento da seção local do WSJ, as luvas foram completamente abandonadas. Em fevereiro, Murdoch fez um ataque pessoal a Sulzberger. Ele disse à revista The New Yorker que achava que o NYT estava preso ao passado e vulnerável a ataques porque "Sulzberger continua no mesmo lugar".

Como peça de resistência, o WSJ fez uma piadinha sobre Sulzberger: ilustrou uma matéria sobre a preferência de mulheres por homens afeminados com uma imagem que parecia uma foto de Arthur Sulzberger - a implicação de que o dono do NYT era gay era gritante.

Nos dias pré-Murdoch, o NYT teria ignorado a provocação, mas agora o jornal está pronto para contra-atacar. A primeira resposta veio quando o NYT pinçou do WSJ uma repórter, Kate Taylor. Embora fosse principiante, ela estava trabalhando no boneco da seção de Nova York e, com isso, estava a par de segredos. O NYT também pescou o chefe de relações públicas do WSJ, Bob Christie, que virou porta-voz de Sulzberger.

Analistas de mídia especulam as razões do dispendioso alvoroço causado por Murdoch. O megaempresário pretende transformar o velho Wall Street Journal em um jornal de interesse geral. A esperança é que uma cobertura local vibrante atraia leitores que normalmente não comprariam o jornal, aumentado a circulação. O WSJ também vê potencial em tirar parte do lucrativo mercado publicitário da cidade de Nova York das mãos do NYT.

Mas, no momento em que a publicidade em jornais está encolhendo e toda a energia do setor parece estar se realocando para a internet, analistas como Alan Mutter, do blog Newsosaur, estão intrigados. Por que não pegar os milhões de Murdoch e investi-los em aplicativos de notícias para iPad, iPhone ou no desenvolvimento do website? "O que me desconcerta é que o ataque ao NYT, no curto prazo, prejudicará ambos os jornais. No longo prazo, essa é uma guerra de desgaste que não tem vencedores."

/ TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK É CORRESPONDENTE EM NOVA YORK

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