Jornal acusa Sarkozy de espionar informante

'Le Monde' diz que processará o Palácio do Eliseu por quebrar sigilo da fonte de reportagem sobre financiamento ilegal de campanha

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2010 | 00h00

O escândalo de financiamento ilegal de campanha na França ganhou ontem um novo elemento que reforça as dúvidas sobre a lisura do governo de Nicolas Sarkozy. O jornal Le Monde anunciou que processará o Palácio do Eliseu por ordenar aos serviços de espionagem que descobrissem a identidade do informante de uma reportagem.

A investigação do diário apurava denúncias sobre o ministro do Trabalho, Eric Woerth, e suas relações com a bilionária Liliane Bettencourt, proprietária da gigante de cosméticos L"Oréal. O tema foi alvo de reportagem de capa e editorial ontem.

Segundo o jornal, a presidência da República teria ordenado à Direção Central de Informação Interior (DCRI) que espionasse um alto funcionário do Estado, identificado como David Sénat, conselheiro penal do gabinete da Ministra da Justiça, Michèle Alliot-Marie. O objetivo era descobrir se ele seria o informante do jornal. "Uma iniciativa intencional que viola o princípio que institui os jornalistas como contrapoder necessário", diz o jornal na reportagem.

Na França, um artigo da lei de 29 de julho de 1881 sobre a liberdade de imprensa recebeu em janeiro uma emenda, proposta pelo governo Sarkozy. O adendo afirma: "O segredo de fontes dos jornalistas é protegido no exercício de sua missão de informação do público". Segundo Le Monde, o presidente teria desrespeitado a lei que criara nove meses antes.

"Nós temos certeza e elementos de prova", afirmou o diretor do diário, Eric Fottorino, à rádio Europe 1. "Para publicar uma manchete tão forte, era necessário que tivéssemos elementos tangíveis, bem definidos, o que nós fizemos nos últimas semanas."

No início da noite, o diretor da DCRI, Frédéric Péchenard, confirmou em nota oficial que o órgão, uma espécie de FBI francês, investigou a fonte. "A DCRI procurou legitimamente a origem dos vazamentos que lhe foram apontados", diz o comunicado, completando: "(...) em uma missão de proteção da segurança das instituições". Péchenard conclui justificando: "O serviço de polícia não fez mais do que seu trabalho."

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