REUTERS/Kenny Katombe
REUTERS/Kenny Katombe

Jornal denuncia 15 casos de assédio sexual em escritórios da ONU

Segundo o The Guardian, cultura do silêncio e retaliações contra mulheres que denunciam crimes é praxe na entidade

Jamil Chade, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

18 Janeiro 2018 | 17h31

GENEBRA - A ONU estaria fechando os olhos para casos de assédio sexual dentro de seus escritórios, mantendo os autores impunes e ignorando as queixas de funcionárias. A revelação é do jornal britânico The Guardian que, em uma reportagem publicada nesta quinta-feira, 18, aponta para uma “cultura do silêncio” e retaliações contra mulheres que denunciam crimes. 

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De acordo com o jornal, pelo menos 15 pessoas teriam sido alvo de algum tipo de assédio sexual ou estupro nos últimos cinco anos. A reportagem aponta que sete funcionárias da ONU formalmente denunciaram assédio e admitiram que outras evitam falar do assunto com o temor de serem demitidas. “Se você denuncia, sua carreira acabou”, disse uma delas, que acusa seu supervisor no Programa Mundial de Alimentos, no Oriente Médio. 

De acordo com o jornal, funcionárias das Nações Unidas em mais de dez países confirmaram o assédio dentro da entidade. Três delas apontam que chegaram a ser ameaçadas de demissão ou já perderam seus cargos. Já os autores, segundo elas, continuam empregados, muitas vezes em posição de chefia. 

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Uma das funcionárias, que preferiu, não se identificar, afirma que foi estuprada por um funcionário da ONU. “Perdi meu emprego”, afirmou. Segundo ela, uma investigação interna nas Nações Unidas apontou que não havia evidência suficiente. Mas, num documento, a equipe de investigadores é questionada, já que não teriam entrevistado a principal testemunha no caso. 

A acusação das mulheres é de que, em cargos de influência, os autores dos crimes teriam conseguido encerrar processos. Há relatos de ameaças até mesmo contra ouvidoras que investigam as denúncias. Outras sete mulheres ainda indicaram que foram aconselhadas a não prestar queixa. 

Num dos relatos, uma mulher conta como foi convidada a uma reunião em que apenas seu chefe estava presente. “Ele me atacou. Consegui escapar, mas depois do ataque a retaliação começou”, contou. “Não fui mais convidada a reuniões importantes e trabalho foi retirado de mim”, disse. 

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Nos meses que se seguiram, o autor do ataque foi mantido em seu cargo e influenciou nas investigações. “Tive ataques de pânico”, contou. “Não há justiça para vítimas”, disse”, na condição de anonimato. De acordo com testemunhas, diretores de departamentos oferecem oportunidades de trabalho em posições com melhor remuneração em troca de favores sexuais.  Um dos principais obstáculos se refere à imunidade diplomática que muitos dos funcionários de alto escalão tem. 

Outro lado

Questionado pelo Estado, o organismo garantiu que quando há uma denúncia substancial, o caso é enviado ao governo local. Um dos problemas é que, em alguns locais onde a ONU está presente, o governo é inexistente. 

A ONU diz ainda que o novo secretário-geral, Antonio Guterres, colocou o assunto como uma de suas prioridades e que sua administração tem “tolerância zero”, mas admite que o número de casos registrados é inferior à realidade.

Com 44 mil funcionários pelo mundo, a burocracia da ONU aponta que irá conduzir uma pesquisa para tentar entender a dimensão do problema e que criou um cargo para permitir que mulheres possam ter um canal de queixa. 

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