Jornal desenterra velhos segredos

'New York Times' revela como EUA negaram os efeitos em veteranos de guerra de armas químicas encontradas no Iraque

Martin Schram McClatchy , TRIBUNE NEWS SERVICE/O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2014 | 03h03

Num furo poderoso e merecedor do Pulitzer, o New York Times acaba de revelar um novo ultraje ao senso de decência dos Estados Unidos, ao desmascarar funcionários do governo no ato de quebrar o compromisso assumido com homens e mulheres que se ofereceram como voluntários para lutar por nós em terras distantes.

A reportagem investigativa do New York Times, escrita pelo correspondente C. J. Chivers, documentou pelo menos seis ocasiões, desde 2004, em que soldados americanos foram secretamente expostos a armas químicas iraquianas, entre as quais o letal gás sarin. No entanto, autoridades americanas negaram a verdade e um tratamento médico a seus próprios soldados.

Contudo, até mesmo os jornalistas do New York Times podem não ter percebido que o problema é mais comum do que eles reportaram. Abusos flagrantes e consequências trágicas semelhantes ocorreram já na Guerra do Golfo, de 1991, e o governo americano igualmente negou fatos, tratamento em tempo hábil e até benefícios a veteranos que foram expostos a armas químicas, entre elas o gás sarin.

Isso ocorreu quando o Exército americano detonou um arsenal de Saddam Hussein em Khamisiyah, Iraque, em março de 1991. Sei porque investiguei e escrevi sobre o incidente em meu livro de 2008, VetsUnder Siege: How America Deceives and Dishonors Those Who Fight Our Battles (Veteranos sitiados: como os EUA enganam e desonram os que lutam suas batalhas, em tradução livre). Narrei os fatos contando a história trágica do especialista E4 do Exército americano, Bill Florey, de Dallas. Ele era apenas um soldado voluntário que estava em Khamisiyah quando soldados, cumprindo ordens, detonaram o arsenal provocando uma coluna de gases contendo o sarin, que encharcou os soldados americanos presentes.

Evasivas. Pode-se a acompanhar as manobras do governo para se esquivar da responsabilidade e, por fim, coagir os que corajosamente se ofereceram para lutar por nós. Foi somente um ano depois da detonação que funcionários das Nações Unidas fizeram a primeira menção pública ao fato de que a coluna de fumaça em Khamisiyah, continha armas químicas.

Cinco anos antes de o Pentágono reconhecer o fato. Seis anos antes de o Pentágono enviar cartas notificando 20 mil soldados americanos de que eles poderiam ter sido expostos a armas químicas. Onze anos antes de funcionários do Departamento de Defesa reconhecerem que o governo americano teve conhecimento o tempo todo de que havia armas químicas no local: a CIA sabia e enviou ao Exército um memorando que se perdeu nos canais burocráticos.

Dois anos antes de o Pentágono enviar sua carta de notificação a Florey, veterano da Guerra do Golfo, ele estava em casa, em Dallas, quando desenvolveu uma inchação no pescoço - câncer. Uma cirurgia no hospital do Departamento de Assuntos de Veteranos (VA, na sigla em inglês) o deixou desfigurado, mas vivo.

Doença. Alguns anos depois, apareceu um calombo na testa de Florey, que começou a crescer. Quando ele pediu um exame de ressonância magnética, um médico do mesmo hospital disse que não, que era apenas uma infecção e injetou penicilina.

O calombo continuou crescendo; o hospital insistiu na negação. Após outra rejeição, a amiga de Florey, Francesca Yabraian, deu um berro do quarto do hospital: "Não vou sair deste quarto até vocês pegarem um telefone e pedirem um exame - agora!". Florey conseguiu o exame. Câncer, tarde demais para operar.

Depois, o Departamento de Assuntos de Veteranos negou a Florey benefícios relacionados à explicação evasiva de que era "pouco provável" que sua exposição ao sarin causara o câncer. Foi então que Yabraian me telefonou.

Eu encontrei um especialista que me contou que o VA poderia comparar taxas de câncer entre os amigos de Florey e outros soldados a meio mundo de distância - e o VA fez precisamente isso e verificou que o grupo de Khamisyiah, de Florey, apresentou uma propensão dobrada a ter câncer.

Assim, Florey foi aprovado para benefícios relativos ao serviço. No entanto, ele morreu antes de recebê-los. A investigação mostrou que este era um padrão de conduta do VA - retardar e negar, até eles morrerem. Um abuso vergonhoso de nossos veteranos que só era bom para o VA.

A reportagem do New York Times, por sua vez, me lembrou outra que fiz uma década antes e poderia ter lançado alguma luz. Num livro de 2003, Avoiding Armageddon (Como evitar o Armagedon, em tradução livre), citei trechos de uma entrevista que uma corajosa produtora de TV, Ginny Durrin, fizera com um agente de inteligência iraquiano capturado numa prisão curda pouco antes da invasão americana do Iraque.

Segredos. O ex-agente de inteligência detalhou sua versão de como e onde sua equipe havia enterrado as velhas armas químicas de Saddam para escondê-las de inspetores da ONU, alegações que foram publicadas naquele livro de 2003. E, segundo a reportagem do New York Times, entre 2004 e 2011, soldados americanos "relataram secretamente terem encontrado aproximadamente 5 mil ogivas, granadas e bombas de aviação químicas".

E mais: o local onde algumas das velhas armas químicas de Saddam estão enterradas - e outras ainda estão armazenadas - é controlado agora pelos terroristas do Estado Islâmico. Esta pode ser mais uma razão para soldados americanos e aliados voltarem ao terreno e combaterem no Iraque. A despeito do que se ouviu nos últimos noticiários de TV. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É jornalista, escritor e produtor de TV

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.