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Jornal divulga novas fotos de soldados dos EUA ao lado de corpos de afegãos

Episódio de má conduta deve aprofundar a revolta da população do Afeganistão; Washington promete investigar

Denise Chrispim Marin, Correspondente, O Estado de S. Paulo, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2012 | 03h05

WASHINGTON - Pela quarta vez, apenas neste ano, o governo dos EUA foi surpreendido por um episódio de má conduta de seus soldados no Afeganistão. Em sua edição de ontem, o jornal Los Angeles Times publicou parte de um conjunto de 18 fotos nas quais combatentes americanos, em uniforme, posam com pedaços de corpos de insurgentes afegãos.

O episódio tende a piorar ainda mais a convivência entre Washington e Cabul e a trazer mais incerteza sobre a permanência das tropas da coalizão comandada pelos EUA no país até o final de 2014. As fotos foram entregues ao jornal por um soldado da 4.ª Brigada de Combate, com sede em Fort Bragg (Carolina do Norte), indignado com a atitude dos companheiros do batalhão. Outros dois soldados também confirmaram os episódios em entrevistas.

O Pentágono abriu uma investigação criminal sobre os casos, ocorridos em 2010. Em fevereiro daquele ano, um grupo de paraquedistas foi destacado para escanear as íris e tomar as impressões digitais de um afegão que cometera um atentado suicida. Os soldados não se contentaram com a tarefa. Posaram sorridentes, segurando as pernas decepadas do terrorista.

Alguns meses depois, o mesmo grupo posou ao lado dos restos de três insurgentes, mortos numa explosão acidental, depois de ter coletado suas impressões digitais. Numa das fotos, os soldados colocaram um cartaz sobre um dos cadáveres com a inscrição "caçadores de zumbis".

Em comunicado, o embaixador dos EUA no Afeganistão, Ryan Crocker, qualificou a atitude de "moralmente repugnante". Assim como nos três episódios anteriores de má conduta das tropas, o secretário de Defesa dos EUA, Leon Panetta, repudiou a ação dos paraquedistas.

"Essas imagens não representam os valores ou o profissionalismo da vasta maioria das tropas americanas em serviço no Afeganistão", reagiu o porta-voz do Pentágono, George Little. "Todos os responsáveis por essa conduta desumana terão de prestar contas à Justiça militar", completou, ao ecoar a "insatisfação" de Panetta.

Repercussão. No Afeganistão, o comandante da Força Internacional de Assistência à Segurança (Isaf), general John Allen, afirmou que a instituição vai trabalhar com o governo afegão para resolver as pendências causadas pelo tratamento impróprio aos insurgentes mortos. Para Allen, o incidente "representa um sério erro de julgamento de vários soldados, que agiram dessa forma por ignorância e desconhecimento dos valores do Exército dos EUA". "As ações minam o sacrifício diário de milhares de soldados da Isaf, que continuam a servir com honra no Afeganistão", acrescentou.

A Casa Branca limitou-se apenas a reforçar a mensagem do Pentágono. Em especial, a crítica de Panetta ao Los Angeles Times por ter publicado as fotos. Segundo Jay Carney, porta-voz da Casa Branca, o presidente Barack Obama foi informado sobre o "repreensível" episódio. "O presidente certamente compartilha da opinião do secretário de Defesa sobre a necessidade de investigação e de responsabilização dos envolvidos", afirmou.

No final de fevereiro, dois oficiais americanos em serviço em ministérios afegãos foram executados por insurgentes do Taleban como represália à incineração de volumes do Alcorão, o livro sagrado do Islã, na base aérea de Bagram.

Um mês antes, imagens na internet mostraram soldados americanos urinando sobre cadáveres de insurgentes. Em março, um sargento americano deixou sua base militar de noite para assassinar 17 civis em um povoado próximo a Kandahar. Os episódios desgastaram a relação de confiança entre Washington e Cabul.

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