Jornal francês é incendiado por 'difamar' o Islã

Redação do semanário satírico 'Charlie Hebdo' é destruída horas antes de edição que trazia caricaturas de Maomé chegar às bancas

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2011 | 03h04

O semanário satírico francês Charlie Hebdo teve sua redação destruída por um incêndio criminoso na noite de terça para quarta-feira, horas antes da publicação de uma edição sobre Islã e democracia na qual aparecem caricaturas do Profeta Maomé. O escritório do jornal, em Paris, foi alvo de coquetéis molotov. Solidário, o diário Libération decidiu abrigar em sua redação os funcionários do Charlie Hebdo.

O ataque ao semanário traz de volta o debate sobre liberdade de expressão e respeito a preceitos religiosos, seis anos após desenhos de Maomé publicados na Dinamarca terem desatado uma violenta crise internacional (mais informações nesta página). O Charlie Hebdo decidiu dedicar um número especial à vitória na Tunísia de um partido islâmico, o Ennahda, e ao fortalecimento de radicais religiosos na Líbia. Abrigada no Libération, a direção do jornal promete seguir adiante com seus planos.

Na edição que chegou ontem às bancas, o Charlie Hebdo aparece rebatizado de "Charia Hebdo", em um jogo de palavras com o código legal do Islã. A capa traz Maomé como "editor convidado" do jornal comemorando a vitória dos islâmicos em Túnis e a decisão do Conselho Nacional de Transição (CNT) da Líbia de estabelecer a sharia como base da Constituição. "Cem chibatadas se você não morrer de rir!", exclama a caricatura do Profeta.

Stephane Charbonnier, editor do semanário, confirmou ontem que vinha sendo ameaçado por meio de cartas e mensagens online. A polícia abriu inquérito para apurar o caso, mas até agora não há suspeitos.

"A violência está sendo usada para barrar o trabalho de cartunistas", disse Charbonnier. Vários jornalistas foram postos sob proteção policial.

A resposta de grupos islâmicos foi também registrada no site da publicação. Na página principal, uma imagem de Meca aparece dizendo que "o único Deus é Alá". Um aviso condenava o uso da imagem do Profeta em caricaturas "grosseiras e vergonhosas, sob o pretexto da liberdade de expressão".

Horas depois do ataque, a classe política francesa e europeia já expressava sua indignação. "A liberdade de expressão é um valor inalienável da democracia e toda ameaça deve ser condenada", alertou o primeiro-ministro francês, François Fillon. "Goste ou não de Charlie Hebdo, a liberdade de imprensa é sacrossanta para os franceses", disse o ministro do Interior, Claude Gueant. O jornal satírico, de 1961, é uma das vozes mais críticas ao governo de Nicolas Sarkozy.

Em 2006, o Charlie Hebdo já havia sido alvo de um processo por difamação por causa das caricaturas de Maomé. A Justiça francesa, porém, considerou que os desenhos criticavam não o Islã, mas os radicais muçulmanos.

Mohammed Moussaoui, líder do Conselho Francês da Fé Muçulmana, grupo que, em 2006, processou o semanário satírico, condenou ontem o uso da violência. "Deploramos o tom do jornal contra o Islã. Mas reafirmamos nossa total oposição à violência."

Na ONU, o debate também ganha espaço. Vários governos de países muçulmanos querem garantir que a difamação religiosa seja uma violação de direitos humanos. Países ocidentais alegam que apenas cidadãos, e não religiões, têm direitos humanos.

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