GLORIA FIDALGO/ ARQUIVO PESSOAL
GLORIA FIDALGO/ ARQUIVO PESSOAL

Crianças portuguesas aprendem a 'falar brasileiro' no YouTube durante a pandemia

Sotaque tem criado polêmica entre alguns pais e virou tema na imprensa local, depois do aumento do intercâmbio cultural entre os dois países nos últimos anos, em virtude de ondas migratórias e da pandemia

Victor Farias, especial para o Estadão, e Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2021 | 15h28
Atualizado 12 de novembro de 2021 | 09h12

Maria Leonor é uma miúda de 7 anos de Miranda do Douro, em Portugal,  que começou a achar muito divertido “falar brasileiro” depois que conheceu o youtuber Luccas Neto na internet. Jonathan, de 6, vive no Porto e passou a falar “oxe, menina” depois que descobriu vídeos de brasileiros no YouTube

As duas crianças são parte de um fenômeno que provoca polêmica em Portugal.  O sotaque brasileiro tem criado polêmica entre alguns pais e virou tema na imprensa local, depois do aumento do intercâmbio cultural entre os dois países nos últimos anos, em virtude de ondas migratórias e da pandemia.

O Diário de Notícias chegou a publicar uma reportagem alertando para esse temor. “Há crianças brasileiras que só falam brasileiro”, diz o texto, que provocou um misto de críticas e brincadeiras dos dois lados do Atlântico.  O motivo apontado pela publicação seria a influência de youtubers do Brasil, os mais assistidos pelos "miúdos" portugueses, que estariam mudando a forma de falar das crianças.

Mãe de Maria, Glória Fidalgo, de 44 anos, disse ao Estadão que acha importante que os “miúdos” tenham outras referências nessa idade, mas acha excessivo a quantidade de conteúdo de youtubers brasileiros que aparece para ela, além de criticar a qualidade do conteúdo de parte das produções. “Há vídeos que eu constantemente denuncio, porque acho que incitam violência entre amigos, violência verbal”, explica.

Verônica, de 32 anos, notou algumas mudanças na forma de falar do filho, Jonathan, de 6 anos. Moradora da cidade do Porto, ela conta que o filho passou a usar o celular com mais frequência para assistir vídeos – vários deles produzidos por brasileiros.

"Acho que o que ele mais falou foi 'oxe, menina!' e 'ó'", contou ao Estadão. “Mas isso foi mais na altura da epidemia. Depois, com o voltar da escola, deixou de mexer tanto no telemóvel e deixou de falar [as novas expressões] em casa. Mas quando encontra amigos brasileiros, começa a falar a ‘brasileiro’. Lembro de um menino perguntar a ele se ele era brasileiro.”

No telemóvel (ou celular, no nosso lado do Atlântico), Verônica diz que o filho assistia principalmente a vídeos sobre jogos virtuais, apesar de não recordar o nome dos youtubers especificamente. "Não sei os nomes deles, mas acho que ele assistia muito o Luccas Neto.”

Intercâmbio cultural

A influência cultural brasileira em Portugal não é nova. A MPB, as novelas e o até o nosso futebol têm moldado os gostos dos patrícios há décadas. O pesquisador do núcleo de inteligência internacional da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Leonardo Paz explica que o Brasil, devido ao seu tamanho, relevância econômica e diversidade, é como um “primo maior” para Portugal, em uma situação semelhante à dos Estados Unidos e da Inglaterra. 

Além disso, diz o professor, o intercâmbio de pessoas – de Portugal para o Brasil,e do Brasil para Portugal – facilita a transferência de conteúdo cultural através do Atlântico. 

Coordenador do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de Coimbra, o português Osvaldo Silvestre afirma que vê uma situação “híbrida”, com ganhos e perdas na força da cultura brasileira em Portugal. Ele cita, por exemplo, o crescimento de músicas do gênero funk e pop, mas uma redução no interesse por novelas brasileiras e pela MPB. Mas o analista é bastante tranquilo sobre uma possível influência do sotaque sul-americano na terra de Camões. 

“Estar a fazer leituras do tipo nacionalistas que dizem ‘nossa identidade está em caos porque estamos a falar um pouco mais com os brasileiros’, é uma coisa que eu não consigo acompanhar. Até porque Portugal vai o quê? 900 anos de idade. Se a identidade portuguesa fosse assim tão frágil que ficasse em caos por causa de fenômenos como este seria muito preocupante”, afirma.

Entre 'memes' e preconceito

A repercussão da matéria do periódico português nas redes sociais rendeu uma série de trocadilhos e publicações bem-humoradas por parte dos usuários brasileiros, que fizeram comparações entre termos mais utilizados em Portugal e no Brasil e brincaram com a hipótese de uma resposta à colonização portuguesa da América.

No entanto, em meio às publicações, alguns usuários iniciaram um debate sobre xenofobia envolvendo o preconceito linguístico. "Problema de verdade é este artigo ter sido planeado, escrito, revisado e, por fim, publicado sem que uma única pessoa tenha pensado "hmm, estamos a ser ridiculamente xenofóbicos", escreveu um usuário português no Twitter. 

Doutoranda e pesquisadora no Instituto de Comunicação da Universidade Nova Lisboa, Camila Lamartine,que trocou a cidade de Natal, no Nordeste brasileiro, por Lisboa, em 2017.  diz que por detrás das provocações aparentemente inocentes nas redes sociais, há uma história de segregação que remonta ao período colonial e que a distinção ainda é sentida no dia a dia por brasileiros no país, apesar das redes provocarem um contato maior, que também permite aproximações.

"A língua, que deveria nos ser um elo, funciona como um mecanismo que segrega, dentro e fora das instituições científicas. Somos corrigidos constantemente, tanto em relação a  linguagem mais informal, quanto a expressões regionais. O 'brasileiro' é uma língua que causa aversão, ainda que velada", disse.  "Na academia, o acordo ortográfico é desprezado. Nossos trabalhos e artigos sempre vem corrigidos em termos de acentuação."/ COLABOROU LUCAS FIDALGO, ESPECIAL PARA O ESTADÃO

Veja algumas publicações nas redes sociais:

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.