Paul Yeung/Bloomberg
Paul Yeung/Bloomberg

Jornal pró-democracia em Hong Kong fechará após prisão de jornalistas

Stand News se tornou publicação de maior importância desde o fechamento do Apple Daily

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2021 | 12h50
Atualizado 29 de dezembro de 2021 | 15h34

HONG KONG - Centenas de policiais da segurança nacional de Hong Kong invadiram a redação do jornal online pró-democracia Stand News nesta quarta-feira (29), no horário local, noite de terça (28) no Brasil, e prenderam seis pessoas por "conspiração para divulgar publicações sediciosas". Após a ação, a publicação anunciou que encerrará suas atividades.

Criado em 2014 como uma organização sem fins lucrativos, o Stand News era a publicação pró-democracia de maior importância no território após o fechamento do Apple Daily neste ano.

Segundo a mídia honconguesa, estão entre os detidos a advogada e ex-legisladora democrática Margaret Ng, a cantora pop Denise Ho, o atual editor-chefe, Patrick Lam, e dois ex-membros do conselho, Chow Tat-chi e Christine Fang.

O Stand News publicou um vídeo da polícia chegando à residência do editor-executivo Ronson Chan, que também é chefe da Associação de Jornalistas de Hong Kong.

"A acusação foi conspiração para divulgar publicações sediciosas. Este é o mandado do tribunal e este é o meu mandado. Seu telefone está obstruindo nosso trabalho", diz um oficial mostrado no vídeo. A emissora local Cable TV disse que Chan não foi preso e apenas auxiliava na investigação.

Em um comunicado, a polícia detalhou que prendeu três homens e três mulheres, com idades entre 34 e 73 anos, e que as buscas em suas casas estavam em andamento. Como de costume, não divulgou o nome dos presos.

Redação é fechada pela polícia em Hong Kong

A redação do Stand News, localizada em um prédio industrial no distrito de Kwun Tong, foi parcialmente fechada, com dezenas de policiais circulando no saguão e quatro vans estacionadas no térreo, de acordo com um repórter da agência de notícias Reuters.

Em comunicado, a polícia explicou que conduziu uma busca com um mandado que a autorizava a "procurar e levar materiais jornalísticos de relevância". Segundo o texto, pelo menos 200 policiais participaram da operação. A  direção do jornal não foi localizada para comentar a ação.

A operação desta quarta gera preocupação sobre a liberdade de expressão e de mídia na ex-colônia britânica – que retornou para o comando da China em 1997 com a promessa de proteção de diversos direitos individuais.

Sedição não está entre as ofensas listadas na lei de segurança nacional imposta por Pequim na ilha em junho do ano passado. São puníveis, por exemplo, terrorismo, conluio com forças estrangeiras, subversão e secessão, com penas que chegam a prisão perpétua.

Julgamentos recentes, no entanto, têm permitido às autoridades usar poderes conferidos pela nova legislação para implantar leis da era colonial usadas anteriormente de forma escassa, incluindo a Ordem do Crime que cobre a sedição.

Autoridades defendem que a lei de segurança nacional restaurou a ordem após os protestos pró-democracia de 2019, classificados como frequentemente violentos, e não limita direitos e liberdades. Críticos, por outro lado, argumentam que a legislação é uma ferramenta para sufocar a dissidência e colocou o hub do mercado financeiro global em um caminho autoritário.

A operação no Stand News ocorre cerca de seis meses depois de centenas de agentes invadirem a Redação do Apple Daily, prendendo executivos por supostos crimes de conluio com um país estrangeiro. Nos dias seguintes, após a polícia congelar os bens da publicação, o jornal encerrou sua circulação.

Nesta terça, promotores apresentaram a acusação de publicações sediciosas contra Jimmy Lai, executivo do Apple Daily, e outros seis ex-funcionários do jornal, além das acusações que já haviam sido apresentadas. Segundo o argumento da promotoria, as publicações poderiam "trazer ódio ou desprezo" ou "motivar descontentamento" contra os governos de Hong Kong e da China.

Autoridades não divulgam quais reportagens são alvo de investigação

A polícia não divulgou, no entanto, quais reportagens do Apple Daily ou do Stand News foram consideradas sediciosas.

A missão da Stand News determinava que o jornal deveria ser independente, autônomo e comprometido com a salvaguarda dos valores fundamentais de Hong Kong de "democracia, direitos humanos, estado de direito e justiça".

Após a invasão do Apple Daily, o Stand News disse que pararia de aceitar doações de leitores e retirou comentários da plataforma para proteger apoiadores, autores e equipe editorial, acrescentando que "crimes de expressão" chegaram a Hong Kong.

O anúncio de junho dizia que Ng, Ho e outras quatro pessoas renunciaram ao conselho, permanecendo os dois diretores fundadores, Tony Tsoi e o ex-editor-chefe Chung Pui-kuen. / REUTERS

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