Jornal venezuelano centenário deixa de circular por falta de papel

Jornal venezuelano centenário deixa de circular por falta de papel

Diário 'Panorama', o mais antigo do Estado de Zulia com 104 anos, disse que não tem acesso a dólares para comprar os insumos necessários para manter edição impressa; desde 2013, mais de cem meios de comunicação fecharam no país

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2019 | 16h19

CARACAS - O jornal venezuelano Panorama saiu às bancas nesta terça-feira, 14, pela última vez depois de 104 anos de circulação devido à falta de papel, uma situação que aflige quase toda a imprensa escrita local em meio à crise política e econômica que sufoca o país.

"Tentamos prorrogar a existência de nosso jornal. Mas, apesar de tanto esforço, hoje, com o coração apertado, temos que apresentar a vocês nossa última edição impressa", explica o editorial do jornal mais antigo do Estado de Zulia, no noroeste do país.

De linha independente, Panorama (baixe o PDF da última edição, em espanhol) era o único meio impresso ainda existente em uma região afetada há uma década por apagões de energia que se intensificaram em março passado, fazendo a outrora próspera economia local se contrair ainda mais. 

"Antes de chegar a este ponto, batalhamos em busca de dólar para comprar os insumos necessários (todos importados: placas, tinta e o caríssimo papel). Também suportamos os terrível peso da crise econômica que sacode o país e que, segundo calcula o FMI, finalizará o ano com uma hiperinflação de 10.000.000%", completou o diário.

O fechamento de 75% dos comércios de Zulia desde o ano passado, segundo dados do sindicato patronal Fedecámaras, provocou uma queda abrupta dos gastos de publicidade no jornal, que já havia limitado o número de cópias em circulação e, agora, se concentrará em sua versão web.

"Teremos que migrar para plataformas digitais, nos reinventar para continuar informando e, assim, superar obstáculos", disse Deivis Rodríguez, editor de política e economia com mais de 15 anos de empresa.

Panorama diz que suas finanças também se deterioraram devido aos contínuos aumentos salariais decretados pelo governo de Nicolás Maduro que, em sua opinião, apenas serviram de "combustível para a inflação" e não levaram em conta a "capacidade das empresas privadas para cumpri-los".

Desde 2013, mais de cem meios de comunicação fecharam na Venezuela, incluindo 70 jornais. Naquele ano, foi criado o Complexo Editorial Alfredo Maneiro, uma corporação estatal que monopoliza o manuseio de papel jornal e que é acusada pelas empresas de mídia de atuar com viés político.

Em dezembro de 2018, a edição impressa do El Nacional, um jornal emblemático fundado em 1943 pelo escritor venezuelano Miguel Otero Silva, parou de circular. Antes, em dezembro de 2016, também deixou de ser impresso o jornal El Impulso, o mais antigo da Venezuela, com 114 anos. / AFP

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