REUTERS/Rodrigo Garrido
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Jornalista é esperança da esquerda chilena

Alejandro Guillier, senador e ex-âncora de TV, tende a herdar votos dos eleitores que não aprovam o governo atual de Michelle Bachelet

Nick Miroff THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2017 | 05h00

SANTIAGO - Candidatos de direita ultimamente vêm ganhando eleições em toda a América Latina e, com a economia do Chile em alta, o bilionário conservador Sebastián Piñera aparece na frente para voltar ao poder nas eleições presidenciais de novembro. 

Piñera, que governou o país de 2010 a 2014, corre o risco de colidir com uma das outras forças predominantes na política global: a rebelião contra o establishment, que beneficiaria seu provável oponente, o senador esquerdista e ex-âncora de TV Alejandro Guillier.

O Chile é uma das economias dominantes da América Latina e é apontado como exemplo de governança limpa e tecnocrática. Com a disputa ainda não iniciada oficialmente, Piñera e Guillier estão praticamente empatados nas pesquisas. Já é muito para Guillier, de 64 anos, candidato independente e relativamente novo na política. Com Piñera enrolado em acusações de negócios inescrupulosos e conflitos de interesse, Guillier pode dar trabalho, avaliam analistas. 

“Se o crescimento econômico não for o tema central das eleições e elas se tornarem um referendo sobre o establishment e a classe política do Chile, o vencedor será Guillier”, disse Roberto Méndez, presidente de empresa de pesquisas GFK Adimark.

Piñera promete restaurar o brilho do chamado modelo chileno - mensagem que vem ganhando repercussão numa época em que o atual governo, da presidente esquerdista Michelle Bachelet, enfrenta um grande índice de desaprovação - 74% rejeitam seu governo, segundo o mesmo instituto. 

Guillier conquistou uma cadeira no Senado em 2013, após uma longa carreira nos noticiários noturnos de televisão. O maior problema dele, segundo analistas, é que até agora não foi testado e não apresentou um plano de mudanças. Embora não faça parte do governo de Michelle Bachelet, ele tampouco rompeu com ela.

“Guillier tem uma margem muito estreita para a vitória”, disse o analista político Ascanio Cavallo. “Essa eleição será muito difícil para a centro-esquerda devido à herança do atual governo.”

Bachelet tornou-se tão impopular que o ex-presidente Ricardo Lagos, que terminou o mandato em 2006 com aprovação em alta, está bem atrás de Guillier como candidato da centro-esquerda na atual disputa, por ser visto como próximo demais do governo dela.

“O que está em crise é a esquerda, aqui e em toda parte”, disse Cavallo. “Ela não tem um projeto de governo que não seja aumentar os benefícios sociais e a participação do Estado, mesmo que não haja dinheiro.” 

Mais obstáculos. Promotores examinam acusações de que o governo de Piñera impediu a construção de uma hidrelétrica que afetaria uma empresa mineradora na qual ele tem participação. Até agora, ele não é alvo de processos, nega qualquer irregularidade e acusa o Partido Comunista do Chile de montar uma “campanha suja” para mantê-lo fora do governo.

De qualquer modo, segundo analistas, o atual clima político antiestablishment deixou os eleitores particularmente sensíveis a suspeitas de impropriedade e Piñera deve pagar um alto preço se as acusações forem adiante. Com nenhum outro nome importante na direita além dele, o beneficiário da insatisfação do eleitorado deve ser Guillier. Seus anos de televisão fizeram dele uma figura familiar que agrada a muitos chilenos, e não é vista como parte da elite política e empresarial do país.

Apesar disso, numa pesquisa Adimark de fevereiro, 45% disseram que acreditam na vitória de Piñera, independentemente de se pretendem votar nele ou não. Apenas 28% previram a vitória de Guillier.

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