Jornalista iraniano diz que não há consenso nuclear no país

O jornalista iraniano Akbar Ganji, libertado em março após cumprir pena de seis anos de prisão por criticar o Governo de Teerã, negou nesta terça-feira que haja consenso entre a população do país a favor do enriquecimento de urânio e atribuiu esta idéia à "propaganda" do regime dos aiatolás.Além de assegurar que no país há uma forte oposição ao regime, Ganji se referiu ao problema nuclear dizendo que "não há consenso. É pura propaganda ideológica".Ganji fez estas afirmações em entrevista coletiva na sede da organização Repórteres sem Fronteiras (RSF) em Paris, onde aterrissou depois de receber em Moscou o máximo prêmio da Associação Mundial de Jornais, a Pluma de Ouro da Liberdade.O jornalista ressaltou que "os 18 grupos políticos reformistas" do país não concordam com a linha adotada pelo atual presidente, Mahmoud Ahmadinejad.Segundo ele, "apenas um pequeno grupo de conservadores"em torno do presidente iraniano apóia o enriquecimento de urânio, enquanto a maioria dos conservadores se opõe ao plano."Em vez de seguir essa política nuclear irracional, (Teerã) deveria liderar uma iniciativa de desarmamento nuclear mundial, porque a bomba atômica não nos protege e cria um consenso internacional contra nós", afirmou Ganji.O jornalista iraniano, de 47 anos, recuperou a liberdade em março após cumprir pena de seis anos de prisão pelos crimes de ultraje a figuras religiosas, ameaça à segurança nacional e difusão de propaganda contra o sistema islâmico.Ganji acredita que o regime iraniano permitiu que ele saísse do país porque teme um novo motivo de confronto com a comunidade internacional, pois na entrega do prêmio em Moscou havia 1.700 profissionais da comunicação.Movimento de oposição O jornalista, que em 2005 fez duas greves de fome em protesto contra sua situação, afirmou que no Irã há um "forte movimento de oposição" ao regime dos aiatolás, formado por "intelectuais, artistas, escritores, professores e estudantes universitários", masque está "muito fragmentado".Ele defende um movimento "pacifista, republicano e partidário da separação entre religião e Estado", através da "desobediência civil" não violenta, que reúna todos estes opositores."O poder divide os iranianos entre revolucionários econtra-revolucionários. Na realidade, o que há são forças que lutam pela democracia, pelas liberdades e pelos direitos humanos, e outras que se opõem a estes valores", disse.Há 13 jornalistas e autores de blogs presos no Irã atualmente, segundo a RSF. "Nos países pouco democráticos como o Irã, a expressão de opinião é considerada um ato político", lamentou o iraniano.O jornalista estava acompanhado na entrevista coletiva pelo ex-responsável do grupo de trabalho sobre a detenção arbitrária na Comissão de Direitos Humanos da ONU, Louis Joinet, e o presidente da Liga de Defesa dos direitos Humanos no Irã, Abdolkarim Lahadji.Ganji viajrá agora a Holanda, Alemanha, Reino Unido e Estados Unidos, onde receberá em julho um prêmio da associação de jornalistas americana.

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