EFE/SEDAT SUNA
EFE/SEDAT SUNA

Jornalista opositor acusa Erdogan de perseguição

Kamil Ergin, que vive no Brasil e faz parte do movimento Hizmet, diz que o governo turco realiza ‘caça às bruxas’

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

19 Julho 2016 | 05h00

Após a tentativa de golpe militar na Turquia, o presidente Recep Tayyip Erdogan passou a acusar o ex-aliado Fethullah Gulen de orquestrar a ação e pede sua extradição - atualmente ele está exilado nos Estamos Unidos. Com as medidas para “punir” os responsáveis pelo golpe, o jornalista turco que vive no Brasil e crítico a Erdogan, Kamil Ergin, conta que o movimento Hizmet - do qual Gulen é líder - está sendo perseguido dentro e fora da Turquia. 

“O primeiro-ministro (Binali Yildirim) fez uma declaração dizendo que não havia mais ambiente favorável para conviver com o movimento”, conta Ergin, detalhando novas medidas adotadas dentro da Turquia para combater o Hizmet. “Criaram uma linha telefônica para receber denúncias da população, ou seja, espionar os membros do movimento. 

Começaram a pendurar cartazes nas lojas dizendo que os integrantes do movimento não poderiam entrar. Prefeitos e governadores declararam que as pessoas não podem alugar casas, empregar, comprar mercadorias de qualquer pessoa ligada ao movimento.”

Para saber o que ocorre em sua terra-natal, o turco diz que recebe informações de quem ainda vive lá. Um amigo, segundo ele, relatou que seu pai está vendendo a casa onde mora na Turquia “a preço de banana” para poder sair de lá e “esconder a verdadeira identidade”. 

Segundo o jornalista, a situação de perseguição ao movimento - surgido nos anos 60 como uma ação de inspiração islâmica para a criação de centros de ensino - estendeu-se ao exterior após a tentativa de golpe. “Na Bélgica, na Alemanha, seguidores de Erdogan se juntaram e picharam escolas, lojas, onde há concentração de pessoas a favor do movimento. Com os EUA, a Turquia usa a base militar usada pela Otan para negociar a extradição de Gulen”, afirma. 

Histórico. Ergin ressalta, no entanto, que essa não é a primeira vez que o Hizmet sofre perseguições por parte do governo Erdogan e critica a nova lei antiterror turca, que prevê a abertura de processos judiciais contra qualquer pessoa que ofenda o presidente. 

“No fim de 2013, quando surgiu uma investigação contra políticos por corrupção, Erdogan começou a culpar o Hizmet dizendo que tentávamos organizar um golpe e determinaram o fechamento de escolas do movimento. Cada vez que Erdogan ganhava mais poder, vencendo eleições e mudando a legislação, a perseguição aumentava, uma caça às bruxas”, relata.

Segundo o jornalista, o Hizmet é contrário à tentativa de golpe realizada na Turquia, mas isso não justifica ações autoritárias por parte do governo. “O movimento, por meio das entidades que o representam pelo mundo divulgaram documentos condenando o caso.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.