Jornalista que jogou sapatos em Bush pode virar ativista

Muntadhar al-Zeidi, jornalista da televisão iraquiana que jogou, em 14 de dezembro, seus sapatos no então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, pode usar sua fama mundial para promover causas humanitárias, segundo sua família. Ele deve ser solto na segunda-feira, após nove meses de prisão. Al-Zeide é bem visto no país, onde muitos acreditam que seu gesto foi uma mostra do desagrado geral com a guerra e com a ocupação norte-americana.

AE-AP, Agencia Estado

10 de setembro de 2009 | 15h06

Festas estão programadas na casa da família, em Bagdá, onde hoje o irmão do jornalista pendurava pôsteres do preso. O governo do primeiro-ministro Nouri al-Maliki, porém, não deve celebrar. Para o regime iraquiano, o episódio foi embaraçoso. Maliki estava ao lado de Bush, durante a última visita do ex-presidente ao país, quando o jornalista lançou seus sapatos durante uma entrevista coletiva. Ao mesmo tempo, al-Zeidi chamava o norte-americano de "cachorro". Bush desviou dos sapatos. As imagens correram o mundo.

Em março, al-Zeidi foi condenado pela agressão. A sentença de três anos de prisão foi reduzida para um ano, pois o jornalista tinha ficha limpa. Agora, ele deve sair três meses antes do previsto, por bom comportamento. Al-Zeidi, um solteiro de 30 anos, praticamente desconhecido por trabalhar em uma emissora pequena, agora é uma estrela. "Acredito que al-Zeidi deve largar seu trabalho como jornalista, porque ele será ignorado ou boicotado por funcionários do governo", notou seu irmão Dargham. "Em vez disso, ele me disse estar interessado em trabalhar em uma organização humanitária ou se tornar ativista pelos direitos das mulheres e dos órfãos."

Político

O repórter também recebeu várias propostas de se tornar um político, mas as recusou. A emissora dele, Al-Baghdadiya, espera a volta do profissional, certa de que com isso a audiência deve subir. A emissora de TV é sediada no Cairo, capital do Egito, e continuou a pagar o salário de al-Zeidi durante seu tempo na prisão. Além disso, a empresa comprou para ele uma nova casa. "Até onde eu sei, pelo que ele me disse - e eu falo com ele semanalmente -, al-Zeidi voltará para trabalhar na Al-Baghdadiya", afirmou o gerente da emissora, Abdul-Hamid al-Sayah. "Ele é muito ligado à emissora", apontou.

Falando do Cairo, o chefe disse entender o ato. "Nós não perdoamos um jornalista que usa o sapato para se expressar", disse al-Sayah. "Mas quando você vê a origem e a história dele, entende sua frustração com a ocupação e seus sentimentos nacionalistas." A emissora planeja uma entrevista coletiva com al-Zeidi e uma aparição em um talk show, no qual ele explicará suas ações e afirmará seu respeito ao jornalismo, segundo o gerente. Al-Sayah disse que talvez o repórter viaje, para se recuperar desse período, e poderia, se quisesse, escolher trabalhar como correspondente no exterior. A emissora tem escritórios na Jordânia, no Egito e na Síria.

"A situação de al-Zeidi não será fácil", nota o analista político Nabil Salim. "Por causa de sua fama, alguns políticos contrários ao governo tentarão usá-lo em suas campanhas, enquanto alguns funcionários do governo sempre olharão para ele com desconfiança."

Segurança

Já a família teme pela segurança do jornalista e tentará realizar celebrações discretas, por questões de segurança. Em 2007, o repórter xiita foi sequestrado por homens armados em um distrito sunita no norte de Bagdá. Foi solto três dias depois, após emissoras de televisão iraquianas apelarem pela sua libertação. Em janeiro de 2008, ele foi capturado por soldados norte-americanos, em seu apartamento, e solto no dia seguinte com um pedido de desculpas. Essas experiências ajudaram a moldar seu ressentimento pela presença militar norte-americana no Iraque.

Muitos no país e no Oriente Médio em geral compartilham esses sentimentos, uma das razões pelas quais o ato foi tão celebrado. Jogos na internet e camisetas foram feitos para lembrar a sapatada - e alguns homens ofereceram suas filhas para casar com al-Zeidi. Já os sapatos arremessados foram destruídos por investigadores tentando determinar se havia explosivos no calçado.

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