Jornalista se desculpa por silêncio sobre genocídio

Um proeminente jornalista da televisão americana, Ted Koppel, deu início a uma série de cinco episódios sobre a guerra no Congo com um extraordinário pedido de desculpas, em nome tanto de seu programa quanto de sua profissão. Poucos americanos sabem sobre a morte de possivelmente cerca de 2,5 milhões de pessoas na parte oriental do Congo, dominada por rebeldes, nos últimos três anos, e ainda menos o porquê. Koppel disse que jornalistas que não deram atenção à notícia devem ser responsabilizados."São eventos sobre os quais você deveria ter ouvido no ´Nightline´ há anos", afirmou Koppel na introdução do programa, tendo ao fundo o Lago Kivu, do Congo. A série do "Nightline", da rede ABC, lança uma luz angustiante sobre a tragédia da região. O programa começa a ser transmitido em 7 de setembro e será retomado em 11 de setembro, até o dia 14."Como podem dois e meio milhões de pessoas morrerem num período de três anos e nós nem percebermos?", perguntou Koppel num comentário. "Não é como se estivéssemos olhando para a história e dizendo ´É muito longe, não nos importemos.´ Não chegamos nem nesse nível". Em contraste, muita atenção foi dada à guerra do Kosovo, onde 20.000 pessoas morreram, segundo estimativas, disse.A guerra de três anos dividiu o Congo em partes controladas pelos rebeldes e pelo governo. Exércitos de Ruanda e Uganda estão no Congo apoiando os rebeldes, enquanto forças do Zimbábue, Angola e Namíbia ajudam o governo a controlar o oeste do país. O Comitê Internacional de Resgate, baseado em Nova York, estima que 2,5 milhões de pessoas já morreram no leste do Congo, em poder dos rebeldes, durante a guerra.O Congo é tão distante, tão inacessível, que o "Nightline" teve que gravar imagens do ar, porque muitos lugares são perigosos demais para se visitar. Os Estados Unidos não têm um interesse estratégico claro na região e é ?praticamente impossível indentificar os bons e os maus?, afirmou. O racismo também é parcialmente responsável pela falta de atenção, com a insidiosa opinião de que as pessoas já esperam isso da África, comentou.Depois de desembarcar no Congo, Koppel e sua equipe descobriram em primeira mão as dificuldades para se ilustrar o programa. O lago de onde Kopel narrou a primeira reportagem é um exemplo. Ele é pitoresco, a pedregosa margem atrás dele estava vazia. A ABC mostra imagens de arquivo do mesmo local sete anos atrás, quando as margens estavam repletas de refugiados fugindo dos combates na vizinha Ruanda, depois do genocídio de 1994. Toneladas de detritos humanos foram jogados no lago, provocando uma epidemia de cólera que matou uma infinidade de pessoas.O "Nightline" mostra ossos de gorilas e elefantes mortos para serem usados como alimentos, num jogo de vida ou morte. Enquanto a câmera percorre os vales de exuberante vegetação no parque, Koppel expressa frustração. "Não temos uma pilha de corpos humanos para mostrar para vocês", disse. "As pessoas estão morrendo no Congo numa média de 2.500 por dia e a maior parte do que vemos parece um maldito cartão postal".Nem tanto. O "Nigthline" divulga incômodas imagens de crianças malnutridas. Koppel entrevista vítimas de estupro, uma dizendo ter sido atacada por 30 homens. Cicatrizes no rosto de outra mulher e um dedo perdido mostra cruelmente o que acontece com quem resiste. O conflito coincidiu com o corte de custos de muitas redes americanas, diminuindo o tempo e atenção dados a matérias do exterior. É difícil dizer se as redes refletiam uma queda de interesse por notícias internacionais entre os telespectadores, ou se a causaram.A rede de Koppel, junto com a CBS, tem negociado com a rival CNN sobre compartilhar custos na coleta de notícias, e certamente está na agenda uma economia nas reportagens feitas no exterior.A ABC tem apoiado plenamente sua visita ao Congo, disse Koppel. "Se começarmos a fazer isso toda semana, vamos ouvir reclamações? Provavelmente, sim", afirmou. "Mas não vamos fazer isso toda semana". Ainda assim, Koppel e seu produtor executivo, Tom Bettag, tentam convencer os telespectadores de que as notícias internacionais não são tediosas."Houve um tempo em que pessoas eram atraídas por notícias ocorridas em locais bem distantes", disse, "porque era sobre povos que não conhecíamos, eventos dos quais não havíamos ouvido. Isto parecia fascinar as pessoas. Agora, elas parecem ter assumido a posição de ´é no exterior, quem se importa?´""Penso que se você torna as histórias acessíveis, então todos se importam, ou todos são induzidos a se importar", afirmou.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.