Jornalista Silva trocou a família por Chávez

Pivô do escândalo que evidenciou divisões do chavismo, apresentador sumiu do mapa

FELIPE CORAZZA, O Estado de S.Paulo

26 Maio 2013 | 02h07

Mario Silva, o jornalista que, sem querer, revelou detalhes da disputa interna que consome o chavismo desde a morte de seu líder máximo, está desaparecido. Amigo de Hugo Chávez e apresentador do ácido La Hojilla ("A lâmina") na emissora estatal VTV, Silva era até terça-feira o principal aríete midiático do regime agora comandado por Nicolás Maduro.

Na véspera, a oposição revelou com alarde a gravação de um telefonema do jornalista a um suposto integrante do serviço secreto cubano, o G2. Na conversa, de 51 minutos, Silva relata, com nomes, sobrenomes e ofensas, disputas ferozes entre integrantes de alta patente do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), o principal do chavismo. Personagens que declaravam união e fidelidade a Maduro publicamente foram expostos em supostos complôs para tomar as rédeas da sucessão de Chávez.

À frente das histórias contadas pela voz grave de Silva, aparecia Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional. Com o mesmo estilo agressivo que marcava as transmissões de La Hojilla, o jornalista descrevia com detalhes as tentativas que Cabello teria feito para se impor como candidato no lugar de Maduro, sem sucesso.

Depois de usar o Twitter para repudiar a divulgação das gravações e acusar a CIA e o Mossad (serviço secreto israelense) de terem participado da "montagem", Silva registrou sua última mensagem aos telespectadores. Gravou um comunicado de seis minutos jurando fidelidade a Chávez e Maduro, e rebatendo a ideia de uma divisão no oficialismo. O discurso é exemplar do estilo truculento que popularizou Silva, ainda que em tom mais abatido do que o habitual. Silva jura que o telefonema ao agente do G2 de Cuba nunca existiu e que é tudo uma armadilha do "fascismo putrefato" da "oligarquia parasitária".

O comunicado foi transmitido no início do programa da mesma noite de segunda-feira. Depois disso, a VTV exibiu o programa já gravado normalmente. No dia seguinte, Silva anunciou seu afastamento alegando questões de saúde. Desde então, não se sabe onde está. Na grade da VTV, o horário de La Hojilla é ocupado por Los Papeles de Mandinga, programa de comentários políticos de Alberto Nolia.

Nascido em 1959 no Estado venezuelano de Bolívar, Mario Silva passou 19 anos em funções burocráticas dentro do grupo editorial Bloque de Armas até finalmente encontrar seu caminho na crônica política. Filho de pais espanhóis - e "acusado" de ser franquista por adversários -, o jornalista incorporou-se à "tropa de informação" chavista em 2002, logo após a tentativa de golpe de Estado contra o presidente.

A versão original de sua "lâmina" começou a ser publicada pelo blog oficialista Aporrea.org. "O trabalho de Mario era de resposta e defesa ante os ataques midiáticos contra a revolução bolivariana", afirmou ao Estado o advogado e analista político Juan Martorano, também colunista do Aporrea.

Em 2004, já amigo de Chávez, Silva transportou La Hojilla para a VTV. Desde então, tomava o fim de noite da TV venezuelana com insultos a opositores, exaltações à revolução bolivariana e piadas - nem sempre sofisticadas - enviadas pelos telespectadores contra os críticos do chavismo.

A amizade e a lealdade a Chávez levaram Silva até mesmo a se afastar da família. Mulher e filhos passaram a ter pouco espaço na agenda tomada por atividades em defesa do regime.

Entre as recompensas pelo sacrifício, Silva conseguiu uma concessão de rádio e tornou-se diretor da emissora Makunaima Kariña.

O fervor bolivariano também levou Silva a obter, em 2011, uma longa entrevista exclusiva com Fidel Castro. As fotos do jornalista diante do líder cubano viraram-se contra ele após a divulgação da conversa com o G2 na segunda-feira. Pela internet, simpatizantes da oposição exigiam processo contra ele por "traição à pátria", alegando submissão a um governo estrangeiro. Durante a campanha para a eleição de 14 de abril, pichações dizendo "Maduro, fantoche dos Castros" eram comuns nos redutos da oposição em Caracas.

Havana também aparece entre as especulações do paradeiro atual de Silva. Rumores que se misturam aos de que ele teria sido detido por ordem de Cabello. Pelo Twitter, a jornalista Marta Colomina garantiu, na sexta-feira, que a VTV já demitiu Silva e proibiu sua entrada no prédio da emissora. Procurada pelo Estado, a emissora não comentou o caso.

Para o professor de comunicação da Universidade Católica Andrés Bello Marcelino Bisbal, Silva agora deve ser substituído por outra figura menos agressiva. "Ele virou um problema para o ministro da Informação", afirmou. Bisbal não enxerga grandes consequências políticas para a divulgação da gravação. "Esse áudio só mostra que evidentemente há uma fratura no chavismo. Já suspeitávamos, mas agora fica evidente."

Também corre a versão de que o áudio de Silva foi divulgado por alguém muito próximo do governo. A amizade profunda e o respaldo com que Chávez o brindava não são compartilhados por Maduro e Cabello. "O programa era muito bom para Chávez, mas não era bem visto pelos atuais líderes", afirmou outro analista consultado pelo Estado.

Enquanto o destino de Silva permanece ignorado, nas ruas de Caracas, ambulantes já vendem CDs com o áudio de sua suposta conversa com o araponga cubano: "Os 51 minutos de Mario Silva".

Em 2011, Silva apresentou sorrindo gravações telefônicas de opositores. Entre os áudios, estava uma conversa da deputada María Corina Machado com sua mãe. Feitas ilegalmente e divulgadas por um blog apócrifo de ocasião, as gravações foram apresentadas com euforia por Silva. "O peixe morre pela boca", disse na abertura da Hojilla naquele 4 de agosto.

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