Jornalistas afegãos denunciam censura de soldados dos EUA

Jornalistas afegãos denunciaram nesta segunda-feira, 5, que soldados americanos apagaram fotografias e filmagens feitas depois de um ataque suicida seguido de troca de tiros no leste do Afeganistão.De acordo com os jornalistas, os soldados americanos apagaram todas as fotografias e vídeos e, de forma ameaçadora, recomendaram que não fossem publicadas imagens de militares dos Estados Unidos nem de um carro no qual três afegãos foram assassinados.Testemunhas e vítimas disseram que soldados americanos abriram fogo contra pedestres e carros civis ao longo de um trecho de dez quilômetros de uma estrada na província de Nangarhar depois de um ataque suicida contra um comboio de fuzileiros navais.O Exército dos Estados Unidos alega que rebeldes afegãos também dispararam contra os soldados durante o episódio. Autoridades americanas e afegãs disseram que oito civis morreram e 34 ficaram feridos no episódio. Um fuzileiro naval americano também ficou ferido.CensuraUm fotógrafo freelancer contratado pela Associated Press disse que um soldado americano deletou suas fotos e um breve vídeo de um veículo no qual apareciam três pessoas mortas a cem metros do local do ataque suicida contra os fuzileiros navais. A AP pretende protestar formalmente contra a atitude dos soldados americanos.O fotógrafo Rahmat Gul informou que testemunhas disseram a ele que os três foram assassinados por soldados americanos no momento em que tentavam fugir do ataque."Quando me aproximei do carro, vi americanos tirando fotografias e também comecei a fotografar", disse Gul. "Dois soldados acompanhados de um intérprete então vieram até mim e disseram: ´por que você está fotografando? Você não tem autorização.´"Não estava claro por que fotógrafos devidamente credenciados precisariam de autorização especial para realizar seu trabalho em um local público.Gul disse que os soldados então pegaram sua câmera, deletaram as fotos e devolveram o equipamento.Câmeras apagadasDepois, um grupo de fotógrafos dirigiu-se a um oficial americano. Os repórteres fotográficos apresentaram suas credenciais e obtiveram permissão para fotografar.Pouco depois, entretanto, o mesmo soldado que havia apagado as fotos de Gul voltou a pegar a câmera do fotógrafo e deletou novamente suas fotografias.Por intermédio do intérprete, o soldado disse ainda que não queria ver fotos da AP publicadas em lugar nenhum.O tenente coronel David Accetta, porta-voz do comando militar americano no Afeganistão, alegou desconhecer algum incidente no qual isso teria ocorrido.Os soldados americanos também apagaram as filmagens de Khanwali Kamran, um cinegrafista da Ariana Television. "Eles me disseram que eu ´teria problemas´ se aquelas imagens fossem ao ar", disse Kamran.Taqiullah Taqi, um repórter da Tolo TV, disse que os americanos utilizaram palavras ameaçadoras. "Segundo um intérprete, um deles disse ´apague as fotos ou apagaremos você!´", relatou Taqi.FilmagensUm cinegrafista da Associated Press Television News conseguiu começar a filmar o local, mas um oficial americano o obrigou a ficar a cem metros de distância."Então eu comecei a filmar o local do ataque suicida. Havia um corpo e soldados americanos. Em outro ponto havia um carro com três pessoas mortas a tiros dentro", disse o cinegrafista freelancer que pediu para não ser identificado.Enquanto ele filmava, um soldado americano ordenou a ele que ficasse imóvel. As filmagens foram então deletadas, inclusive entrevistas com participantes de um protesto contra a violência.Em Paris, o grupo Repórteres Sem Fronteiras denunciou a atitude dos militares americanos. "Por que os soldados fazem isso se não têm nada a esconder? A situação no Afeganistão é tensa e a imprensa deve ter liberdade e segurança para fazer seu trabalho", disse Jean-Francois Julliard, porta-voz do grupo de defesa da liberdade de imprensa.

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