Nanna Heitmann/The New York Times
Nanna Heitmann/The New York Times

Jornalistas russos reagem à repressão com sarcasmo e apoio dos leitores

O Meduza, um importante site de notícias independente, revida à perseguição com piadas e uma campanha de doação impressionante. Mas ele é capaz de enfrentar o Estado russo?

Ben Smith, The New York Times, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2021 | 20h00

RIGA, Letônia - Existe um estilo de podcast americano no qual dois jovens jornalistas discutem e investigam seus próprios problemas de vida, entrevistam suas mães, morrem de rir.

Sonya Groysman, uma jornalista de 27 anos de Moscou que trabalhava para o site de notícias independente Proekt, era uma fã desses programas. Por isso, pareceu natural a ela e à sua colega Olga Churakova começar a gravar um programa do tipo, para abordarem as próprias dificuldades que enfrentavam.

Mas os problemas que elas discutem no formato tão conhecido são aterrorizantes e ameaçadores. No mês passado, as duas mulheres foram colocadas na lista de "agentes estrangeiros" do governo russo, uma designação que ameaça encerrar as suas carreiras. Se elas não preencherem resmas de papelada e anexarem um alerta de 24 palavras até mesmo em publicações pessoais em mídias sociais, podem ter que pagar multas pesadas e até ir para a prisão.

Frente às ameaças, o podcast delas se chama “Olá, você é um agente estrangeiro”. O primeiro episódio começa com Groysman rindo e com dificuldade para ler o aviso, que, traduzido, quer dizer: “ESTA MÍDIA / CONTEÚDO NOTICIOSO FOI CRIADO E / OU DISSEMINADO POR UM MEIO DE COMUNICAÇÃO DE MASSA ESTRANGEIRO EXECUTANDO AS FUNÇÕES DE UM AGENTE E / OU ENTIDADE JURÍDICA RUSSA QUE EXECUTA AS FUNÇÕES DE UM AGENTE ESTRANGEIRO.” Em outro episódio,Churakova tenta e não consegue um emprego em uma rede de fast-food especializada em blinis (versão russa das panquecas) após explicar seu novo status.

Groysman e sua co-apresentadora não estão pedindo dinheiro aos ouvintes para apoiar o podcast, disse ela, porque estão preocupadas que o uso de algo como a plataforma americana de crowdfunding Patreon possa ser mal interpretado e usado contra elas. O podcast, disse ela, é simplesmente a maneira de permanecerem "ocupadas".

O programa das jovens jornalistas integra um imprevisto florescimento da mídia russa. Em um país onde, essencialmente, todas as grandes emissoras de televisão são uma versão pró-governo da Fox News, uma série de canais digitais conseguiu descobrir furos fascinantes. Eles expuseram a riqueza da família do presidente Vladimir Putin e publicaram matérias sobre os agentes que envenenaram o líder da oposição Aleksei Navalny.

Tudo fazia parte de uma onda global de jornalismo intransigente em lugares hostis — a imprensa afegã era, até a semana passada, a mais livre de sua região —, onde os autocratas têm cada vez mais visto os repórteres como uma ameaça. Neste verão, o governo russo tentou parar a onda, classificando seus críticos de maior impacto como “indesejáveis”, ou como agentes estrangeiros, ou ambos.

O fundador do site de notícias Proekt, que se traduz como Projeto, deixou o país. O site independente de notícias de negócios VTimes fechou. Na sexta-feira passada, o governo acrescentou à sua lista a TV Rain, há muito um importante veículo independente, e o site de notícias iStories. E Groysman foi presa no sábado, ao protestar contra a mudança, e detida por cinco horas. Ela aborda a prisão no próximo episódio de “Oi, você é um agente estrangeiro”, previsto para ir ao ar nesta terça-feira.

A designação de “agente estrangeiro” tem consequências práticas, incluindo afastar parceiros de negócios. Também obriga os jornalistas a anexarem a isenção de responsabilidade de 24 palavras ao seu trabalho, até mesmo às suas postagens pessoais em redes sociais. E vem com ecos de um passado sombrio e stalinista.

“Isso o transfere imediatamente para a década de 1930”, disse Ivan Kolpakov, editor-chefe do site de notícias Meduza, cuja audiência de mais de 10 milhões por mês o tornou o alvo mais forte da repressão. “Ontem você era um respeitável jornalista da mídia independente mais popular. Hoje você é uma pessoa marginal. Isso significa que muitas portas que foram abertas imediatamente se fecham bem na frente de sua cara.”

Visitei Kolpakov no novo escritório do Meduza — um apartamento lotado com vista para um pátio em uma rua lateral perto do centro da capital da Letônia. A co-fundadora e executiva-chefe do site, Galina Timchenko, está pagando o aluguel ela mesma. Eu estava lá porque, embora muitos dos alvos da repressão sejam tirados de uma nova onda de pequenos veículos investigativos online financiados por doações, o Meduza é algo diferente.

Fundado em 2014 em Riga por jornalistas que deixaram outro site popular depois que ele perdeu sua independência, o Meduza começou como um negócio baseado em publicidade, decididamente comercial, um primo não muito distante dos sites de notícias americanos que foram fundados mais ou menos na mesma época.

O ativista nacionalista que fez campanha para rotulá-lo de agente estrangeiro, Aleksandr Ionov, se baseou em poucas evidências — um podcast patrocinado pela agência de turismo da Letônia, por exemplo — para alegar que era apoiado por estrangeiros. Com 1,3 milhão de seguidores no Twitter, quase um milhão de seguidores no Instagram e quase 450 mil seguidores no Telegram, o Meduza tinha uma receita anual de mais de US$ 2,5 milhões antes de sua designação, em 23 de abril, como agente estrangeiro, disse Kolpakov.

Quando isso aconteceu, em uma semana, o Meduza perdeu mais de 95% de seus anunciantes. Kolpakov e  Timchenko disseram à equipe, durante uma reunião sombria no Zoom, que não viam nenhum caminho viável para continuar. Repórteres e editores ficaram furiosos — e exigiram que eles “lutassem até o fim”, disse Tatiana Ershova, diretora editorial do Meduza.

Então, eles lançaram um apelo de última hora, pedindo aos leitores dinheiro para “salvar o Meduza”. Para proteger doadores temerosos, aceitaram até criptomoedas, e não exigiram que os apoiadores deixassem endereços de e-mail, embora muitos o tenham feito.

A campanha também buscou transformar o rótulo de “agente estrangeiro” de uma designação com tons sinistros para algo risível. “Torne-se um agente do verão”, dizia um anúncio. Uma postagem no Instagram sugeria que você marcasse no post o seu “crush agente estrangeiro”.

O resultado é uma das campanhas mais eficazes desse tipo. O Meduza já alcançou mais de 90 mil doadores. Os jornalistas ficaram surpresos ao se sentirem “realmente amados e necessários, e por verem que as pessoas querem ler as suas histórias”, disse Katerina Abramova, diretora de comunicações do site.

Kolpakov se recusou a especificar quanto dinheiro eles levantaram. “Achamos que qualquer informação detalhada pode ser usada contra nós pelo Estado.”

A publicação ainda teve que cortar cerca de 40% de seus custos e mudou de uma redação nova em folha para as suas instalações atuais. Mas o Meduza continua no ar — e, enquanto grande parte da equipe se estabeleceu em uma espécie de exílio em Riga, alguns de seus repórteres continuam a reportar direto de Moscou, mesmo se fontes oficiais citam a designação de "agente estrangeiro" como um motivo para não falarem mais com eles.

A questão que paira sobre Meduza e outros sites independentes é se o governo tentará bloquear o acesso aos veículos dentro da Rússia. “Eles vão nos bloquear um dia, provavelmente mais cedo ou mais tarde”, disse Roman Badanin, que era chefe de Groysman no Proekt.

Até lá, ele acrescentou, ele está na Califórnia, onde planeja começar um novo empreendimento de mídia sob o nome de “Agentstvo”, em uma referência ao seu status jurídico volátil.

Ionov, o ativista nacionalista que liderou a repressão, disse em uma entrevista que “não estava chateado” com o retorno via crowdfunding do Meduza. Na verdade, ele até reivindicou algum crédito pelo sucesso da campanha.

“Eu nem pedi a eles que me dessem uma porcentagem”, disse ele na sexta-feira, logo antes de postar um meme do “Império contra-ataca” em seu canal no Telegram, em celebração às últimas adições à crescente lista de indesejáveis.

Ionov, que fundou o Movimento Anti-Globalização da Rússia e defendeu a secessão da Califórnia dos Estados Unidos, disse que a lei russa que restringe os meios de comunicação críticos é simplesmente sua própria versão da Lei de Registro de Agentes Estrangeiros dos Estados Unidos, que exige a divulgação de pessoas agindo em nome de governos estrangeiros. 

O governo dos EUA pressionou a emissora de televisão estatal russa RT a se registrar como agente estrangeiro em 2017, oferecendo ao governo russo um pretexto para visar a Radio Free Europe / Radio Liberty, apoiada pelo governo dos EUA, que também está lutando contra a designação em tribunais russos.

Embora a maior parte da pressão sobre os jornalistas na Rússia pareça derivar do medo que o governo tem de Navalny, o ativista preso, antes das eleições parlamentares do mês que vem, as investigações americanas sobre a influência russa durante o governo Trump também oferecem um pretexto útil.

Na prática, no entanto, o principal efeito da repressão tem sido tornar mais difícil para os russos verem seu próprio país com clareza, e para os jornalistas noticiarem sobre ele — ou até mesmo permanecerem lá.

Uma repórter do Meduza, Kristina Safonova, apresentou uma queixa este ano de que um policial a havia agredido com um cassetete durante um protesto que ela estava cobrindo. Depois que o Meduza foi rotulada de agente estrangeiro, ela soube que uma investigação policial se voltaria contra ela: ela vinha praticando jornalismo sem licença, um oficial disse a ela, e Safonova, de 27 anos, poderia acabar enfrentando 40 dias em prisão e uma multa de cerca de US$ 4 mil.

Ela partiu para Riga dias depois. “Eu não esperava que isso acontecesse tão rápido”, disse ela, sobre como, de jovem repórter em Moscou, rapidamente passou a ser mais uma entre o número crescente de jornalistas russos exilados.

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