Jospin rompe silêncio e pede voto anti-Le Pen

O primeiro-ministro Lionel Jospin decidiu romper o silêncio que vinha mantendo desde domingo, quando admitiu publicamente sua derrota nas eleições presidenciais, e lançar um apelo para que os franceses exprimam sua rejeição à extrema direita, alertando para os perigos que ela representa ao país. Mesmo não falando de forma explícita, Jospin pretendeu alinhar sua posição à de seu partido, diante dos apelos formulados por numerosos outros dirigentes socialistas, mas também comunistas e verdes, todos favoráveis a um voto contra o candidato da extrema direita, Jean-Marie Le Pen, no segundo turno, dia 5. Jospin redigiu um comunicado lacônico, de apenas quatro linhas recomendando implicitamente o voto em Chirac, mas sem citá-lo. O silêncio de Jospin vinha incomodando os dirigentes do próprio Partido Socialista, de onde partiam insistentes pedidos para que o chefe do governo se manifestasse o mais rapidamente possível, diante das reticências do eleitorado socialista em votar em Chirac sem que o candidato derrotado se manifestasse oficialmente. As razões que explicam essa demora de Jospin são duas. A primeira é o fato de ele ter anunciado sua retirada da vida pública no domingo. A segundo é o fato de responsabilizar Chirac pela abusiva exploração do tema do aumento da violência e da insegurança, o que permitiu a ascensão de Le Pen durante a campanha. Outros socialistas, entretanto, foram bem mais explícitos. "Votar em Chirac é praticar um voto ético", disse um dos maiores adversários do presidente e um líderes do PS, o ex-ministro da Economia Dominique Strauss Khan. Ele, como muitos outros dirigentes socialistas, verdes e comunistas, está recomendando vivamente ao eleitor participar da frente republicana de Chirac contra Le Pen. Até agora, Jospin era uma das únicas exceções, mantendo o mais absoluto silêncio em sua fortaleza do Hotel Matignon (sede do governo), onde se encontra desde o anúncio do desastre eleitoral. Ele só rompeu esse auto-exílio quando compareceu ao Palácio do Eliseu quarta-feira para participar da última reunião do Conselho de Ministros, presidida por seu adversário político, o presidente Chirac. PressãoHoje, o próprio primeiro-secretário do PS, François Holande, que desde o primeiro momento havia deixado clara sua opção por Chirac no segundo turno, pediu ao primeiro-ministro que assumisse "suas responsabilidades". Holande não tinha dúvidas de que Jospin uniria sua voz às demais, dos mais variados horizontes políticos, que consideram ser esse o dever mínimo de todos os democratas. O gesto de Jospin deverá desbloquear uma parte do eleitorado socialista que não escondia seu constrangimento em votar em Chirac sem uma palavra do candidato derrotado. Outros socialistas, que não votaram em Jospin no primeiro turno, preferindo se abster ou votar em algum candidato alternativo domingo, reservando o voto em Jospin para o segundo turno, também hesitavam em votar em Chirac, arrependidos da decisão que precipitou a derrota de seu candidato preferido e sua eliminação prematura da disputa. Jospin vinha sendo pressionado pela própria base partidária a se manifestar, entre ourtos pelo porta-voz do PS, Vincent Peillon, para quem essa era "uma obrigação moral". Entre os conservadores, Phillippe Douste Blazy, um dos nomes citados para substituir Jospin no Hotel Matignon, chegou a definir como "chocante", o longo silêncio do primeiro-ministro hoje quebrado por um simples comunicado distribuído pela France Presse.

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