EFE/ONG Sea Watch
EFE/ONG Sea Watch

Jovem alemã desafia homem-forte da Itália em defesa de refugiados

Carola Rackete ignora ordens de Matteo Salvini e promete desembarcar imigrantes em Lampedusa

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2019 | 05h00

LAMPEDUSA, ITÁLIA  - Ela tem 31 anos e fez o que muitos políticos italianos não conseguiram: tirar do sério o líder nacionalista Matteo Salvini, vice-premiê da Itália. Carola Rackete é capitã do navio Sea Watch 3, de bandeira holandesa, que pertence a uma ONG alemã. 

O Sea Watch furou o bloqueio da Guarda Costeira italiana e está a caminho do Porto de Lampedusa com 42 imigrantes resgatados no Mediterrâneo, ignorando solenemente a ordem de Salvini, que proibiu o barco de atracar na Itália – um decreto aprovado em junho prevê multa de até € 50 mil (mais de R$ 200 mil) para quem desembarcar imigrantes no país.

“Aqui não desembarca ninguém. A menos que Berlim, Amsterdã e Bruxelas assumam a responsabilidade sobre esses imigrantes”, esbravejou ontem o vice-premiê em vídeo publicado na internet. “Estou de saco cheio de ver a Itália tratada como um país de Série B. Chega!”

No dia 12, o navio resgatou 53 pessoas que estavam à deriva em um bote de borracha na costa da Líbia – 11 eram crianças, mulheres ou doentes, considerados “vulneráveis” e foram retirados do barco pela Guarda Costeira italiana. Os outros 42 permaneceram a bordo, mas cada vez mais debilitados. 

“Decidi entrar no Porto de Lampedusa. Sei que é um risco, mas os 42 estão exaustos”, escreveu Carola, na terça-feira, em mensagem postada na internet, desafiando Salvini. O italiano respondeu. “Ela é uma falastrona que faz política com a vida desses imigrantes. O Sea Watch não se importa com a lei, isto é tráfico de pessoas. Não darei autorização para atracar, nem agora, nem no Natal ou no ano-novo.”

Carola nasceu na Alemanha, mas se formou em ciências náuticas pela Universidade Jade, de Bremen, e tem mestrado em conservação ambiental pela Universidade de Edge Hill, no Reino Unido. Fala cinco línguas – alemão, francês, inglês, espanhol e russo – e já comandou o navio Arctic Sunrise, do Greenpeace

“A minha vida foi fácil, pude estudar em três universidades. Sou branca, alemã, nascida em um país rico e com o passaporte certo. Quando percebi isso, senti uma obrigação moral: salvar aqueles que não tiveram as mesmas oportunidades que eu”, escreveu Carola nas redes sociais.

Ontem, Carola disse que a decisão de seguir para a Itália, mesmo arriscando ser presa, está amparada no direito internacional, que protege embarcações em casos de emergência. “Nós fomos abandonados pela Europa”, disse Carola.

Até o início da madrugada de hoje, o Sea Watch permanecia parado, a uma milha do Porto de Lampedusa, bloqueado pela polícia italiana. A bordo, subiram vários deputados de oposição a Salvini. Eles garantem que só saem quando uma solução para os 42 refugiados for encontrada. / REUTERS e AP 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.