Reprodução / Arquivo pessoal
Reprodução / Arquivo pessoal

Jovem apaixonada por soldado do Estado Islâmico pode ser presa por terrorismo

Varvara Karaulova foi detida na Turquia quando se preparava para cruzar a fronteira com a Síria, e pode ser condenada por tentar se unir a uma ‘organização considerada terrorista’

O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2016 | 11h21

MOSCOU - A estudante de Filosofia na Universidade Pública de Moscou (MGU) Varvara Karaulova se apresenta a um tribunal militar há uma semana por ter tentado, há um ano, viajar para a Síria para encontrar o namorado, membro do grupo Estado Islâmico (EI). A jovem de 20 anos está apaixonada pelo jihadista e pode ser presa por ligação com terrorismo.

Detida na Turquia quando se preparava para cruzar a fronteira síria, Varvara pode ser condenada a até cinco anos de prisão por tentar se unir a uma "organização considerada terrorista pelas leis russas".

"Não me uni a nenhuma (organização), não sou uma terrorista e nunca quis me transformar em uma", declarou ela no início do julgamento, no dia 5 de outubro, segundo a agência de notícias russa Interfax.

Enquanto os julgamentos contra aspirantes a jihadistas se multiplicam na Rússia, alguns até com penas severas, o caso de Varvara é uma exceção: a maioria dos detidos é de origem caucasiana, enquanto ela nasceu e cresceu em Moscou.

Para seu advogado, o Dr. Serguei Badamchine, seu julgamento vai servir como exemplo e desincentivar mulheres jovens e apaixonadas por jihadistas, como Varvara, a viajarem à Síria.

"Evidentemente, é o simulacro de um julgamento", denunciou seu advogado. "Fizeram vítima uma pessoa que não tem nada a ver com atividades terroristas". "Por que ela? Não sei", acrescentou.

Varvara Karaulova, que usou o nome de Alexandra Ivanovna para evitar o assédio da imprensa russa, cresceu em uma família de classe média em um bairro residencial conhecido como a “Chelsea" de Moscou.

Aluna exemplar, Varvara começou a se interessar pelo Islamismo e decidiu usar o véu. Discreta, passou despercebida até seu desaparecimento, no dia 27 de maio de 2015. Seu pai voltou a saber dela quando foi presa juntamente com outras mulheres em Kilis, na Turquia, ponto de passagem obrigatório para quem quer cruzar para a Síria.

Repatriada para a Rússia, foi libertada no início pois os investigadores tinham certeza de que ela não havia cometido nenhum delito, mas seis meses depois foi novamente presa.

Durante seu julgamento, que deve acabar em duas semanas, Varvara tem falado pouco, mas sempre com uma voz clara. Lê suas anotações e por vezes folheia o Código Penal, sentada em uma jaula envidraçada da sala de audiências, como é tradicional na Rússia. Ela se nega a responder perguntas sobre suas convicções religiosas. Usa maquiagem e vestidos coloridos e abdicou do véu.

Varvara nunca se encontrou com o homem que desejava ver na Síria. Na internet ele usa o nome Vlad, Adam ou Artur Sokolov. Segundo os investigadores, trata-se de Airat Samatov, um combatente do EI. Durante vários meses a jovem manteve conversas virtuais com ele, se apaixonou e aceitou sua proposta de casamento.

"Ninguém sabia o que estava acontecendo. Nem ela, nem seus pais, nem seus amigos", disse o Dr. Badamchin, que descreve Varvara como uma pessoa fechada e reservada. "Era seu primeiro amor", assegura ele.

A defesa apresentou testemunhas, entre as quais várias mulheres que foram detidas ao mesmo tempo que a estudante em Kilis e depois libertadas pelas autoridades desde que chegaram à Rússia. Uma delas, Regina Velimetova, se lembra quando Varvara estava a ponto de cruzar a fronteira. "Chorava e sentia falta dos pais", contou em uma videoconferência. "Conheceu um homem que vivia na Síria e que propôs casamento. Tinha se apaixonado", acrescenta.

Mulheres como Varvara "querem se casar como diz a sharia", a lei islâmica, explicou Regina, que diz ter ido para lá para buscar a felicidade conjugal". "Isso não significa que vamos para lá para participar de atos militares e nos explodir", afirmou. "Nosso objetivo é simplesmente viver onde a lei islâmica é respeitada", acrescentou. / AFP

Mais conteúdo sobre:
SíriaEstado IslâmicoFronteira

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.