AFP
AFP

Jovem foge do Estado Islâmico e narra em livro escravidão sexual

Jinan ficou durante três meses em poder de jihadistas que a torturaram e tentaram convertê-la

O Estado de S. Paulo

02 Setembro 2015 | 07h00

PARIS - Sequestradas, agredidas, vendidas e estupradas: o Estado Islâmico (EI) tem no Iraque um "mercados de escravas", nos quais as mulheres das minorias, como as yazidis ou as cristãs, são vendidas para servir como escravas sexuais, contou à France Presse uma jovem que conseguiu escapar.

No livro que será publicado na sexta-feira na França pela editora Fayard, Escravas do Daech (nome do EI em árabe), Jinan, uma jovem de 18 anos da minoria religiosa yazidi, conta como foram seus três meses de cativeiro no Iraque, em 2014, em pode de jihadistas do EI, e como conseguiu fugir uma noite roubando umas chaves.

Depois de ficar presa em vários lugares, entre eles um cárcere em Masul, Jinan foi comprada por dois homens, um ex-policial e um imã, que a prenderam em uma casa junto com outras prisioneiras yazidis.

"Eles nos torturavam, queriam nos converter à força", conta Jinan à AFP, em Paris, onde se encontra para a publicação de seu livro, escrito juntamente com o jornalista francês Thierry Oberlé.

"Se rejeitávamos, éramos agredidas, acorrentadas do lado de fora em pleno sol, obrigadas a beber água onde flutuavam ratos mortos. Às vezes, ameaçavam nos torturar com choques elétricos", disse.

"Esses homens não são humanos, só pensam na morte, em matar. Usam drogas sem parar. Querem se vingar de todo o mundo. Afirmam que um dia o Estado Islâmico reinará no mundo inteiro", acrescentou.

Em Mossul, Jinan foi levada a um imenso salão com colunas, onde dezenas de mulheres estavam reunidas. "Combatentes circulavam à nossa volta. Brincavam, davam risadas grosseiras, nos beliscavam nas nádegas. Um deles me pegou pelo rosto: "esta tem belos seios, mas quero uma yazidi com olhos azuis, com pele clara. Parece que essas são as melhores. Estou disposto a pagar o preço que for'", disse o jihadista.

A jovem lembra de ter visto nesse mesmo mercado de escravas compradores iraquianos, sírios, mas também estrangeiros ocidentais, cuja nacionalidade não sabe determinar. As jovens mais bonitas são reservadas a clientes do Golfo, que podem pagar mais.

Nas casas onde eram mantidas, o dia era marcado pelas inúmeras visitas de compradores. "Há vendedores que atuam como intermediários, emires que inspecionam a mercadoria"."Troco sua pistola Beretta pela moreninha, mas se preferir pagar o preço em dinheiro são US$ 150. Aceitamos também dinares iraquianos", disse um deles.

Convencidos de que ela não entendia árabe, seus dois "donos" falam livremente diante dela. Uma noite ela ouve a conversa:"Um homem não pode adquirir mais de três mulheres, a menos que venham da Síria, Turquia ou do Golfo", lamenta um deles, que se chamava Abu Omar.

"É para favorecer o negócio", responde o outro, Abu Anas. "Um comprador saudita tem gastos de transporte e alimentação que um membro do Estado Islâmico não tem. Há uma cota mais alta para rentabilizar suas compras. É um bom acordo: a casa de finanças do Estado Islâmico aumenta sua renda para apoiar os jihadistas, e nossos irmãos estrangeiros ficam satisfeitos".

Acompanhada em Paris por seu marido, com o qual conseguiu se encontrar depois de sua fuga, Jinan vive atualmente em um campo de refugiados yazidis no Curdistão iraquiano.

"Se voltarmos aos nossos povoados, haverá outros genocídios contra nós. A única solução seria se tivéssemos uma região nossa, sob proteção internacional", diz. / AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.