Jovem Kennedy segue passos de avô e prepara entrada na política

Joseph P. Kennedy III, neto de Robert Kennedy, anuncia que pode disputar cadeira no Congresso e dar continuidade a legado da família

RENATA MIRANDA, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2012 | 03h05

Quando Joe, um jovem cheio de sardas e cabelos ruivos bagunçados, começou a falar na Câmara Estadual de Massachusetts, todos se calaram. A eloquência e articulação do promotor, de apenas 31 anos, não eram as únicas qualidades responsáveis por atrair tamanha atenção. A plateia estava hipnotizada por outro atributo: seu sobrenome. Joe é Joseph P. Kennedy III - neto de Robert Kennedy - e o principal responsável por manter vivo o legado da mais famosa família da política americana.

As palavras de Joe foram proferidas em meados de 2011 nas comemorações dos 50 anos do discurso de despedida de seu tio-avô, John F. Kennedy, feito no mesmo local, antes de deixar seu Estado natal rumo a Washington para tornar-se o 35.º presidente dos EUA. Joe condenou a "atmosfera de ódio" entre democratas e republicanos e disse que ideais como a coragem e a integridade deveriam prevalecer sobre as picuinhas partidárias.

"A falta de senso comum e de justiça em Washington é produto de impasses partidários que transformaram a obstrução em vitória", disse. "Os americanos são melhores do que isso. Cada dia trabalhamos com pessoas com histórias e posições políticas diferentes para atingirmos um fim comum. Washington pode e deve fazer o mesmo."

Ao encerrar, Joe foi ovacionado por todos os presentes. "Acho que temos um novo Kennedy", afirmou a presidente da Câmara, Therese Murray. "Outro discurso histórico de outro Kennedy."

Foi só um ano depois que Joe, graduado pela Universidade de Stanford e pela Escola de Direito de Harvard, decidiu entrar no "negócio da família". No dia 5, ele anunciou que deixará no fim do mês seu cargo como promotor do Condado de Middlesex e formará um comitê para explorar suas chances como candidato à Câmara dos Representantes pelo 4.º Distrito de Massachusetts - o que já permite que ele inicie arrecadações de campanha.

"Minha decisão de considerar com seriedade o cargo tem como base um profundo compromisso com o serviço público e minha experiência - tanto pessoal como da minha família - em encontrar soluções justas, práticas e bipartidárias para desafios difíceis", afirmou Joe. "É um compromisso que tenho desde muito jovem."

Joe é o primeiro de sua geração na família a mostrar interesse em concorrer em uma eleição e seu anúncio marca o retorno do clã ao cenário político americano depois da saída de Patrick Kennedy do Congresso, no ano passado. É a primeira vez em mais de 60 anos que não há um integrante da família Kennedy cumprindo um mandato nos EUA.

Candidatura. Caso apresente sua candidatura, o jovem Kennedy tem chances reais de ser eleito, acreditam especialistas políticos ouvidos pelo Estado. "Ter o sobrenome Kennedy, com certeza, atrairá atenção e ele tem uma chance real de vencer", disse Barbara Perry, professora do Miller Center, da Universidade de Virgínia, e autora do livro Jacqueline Kennedy: First Lady of the New Frontier (Jacqueline Kennedy: a primeira-dama de uma nova fronteira, em tradução livre). "Ele não tem nada de ruim relacionado a ele e tem um histórico público muito bom."

Além de ter um currículo acadêmico impecável, Joe é fluente em espanhol, prestou ajuda legal gratuita para a população de baixa renda durante seu tempo em Harvard e foi o primeiro integrante da família Kennedy a servir no Peace Corps, entidade fundada pelo presidente JFK. De 2004 a 2006, Joe foi enviado pelo grupo à República Dominicana para ser voluntário.

A fama de bom moço e o sobrenome, porém, podem não ser suficientes para livrar o pré-candidato dos ataques de opositores. "Do mesmo jeito que ser um Kennedy ajuda a carreira política de Joe, também há um lado negativo, porque há um legado de escândalos da família que ele terá de superar", disse Peter Ubertaccio, professor de Ciências Políticas da Stonehill College. "No entanto, sempre que um Kennedy entra em uma disputa em Massachusetts, ele tem uma chance."

Barbara Perry lembra que, apesar de o nome da família não ter mais tanto poder na política dos EUA, muitos americanos ainda são fascinados pelos Kennedy. "Pessoas nos EUA ainda têm bastante interesse pela família porque eles representam uma 'era dourada' da história americana", afirmou Barbara. Ela ainda disse que muitos americanos comparam o clã com a família real britânica. "A família Kennedy é o mais próximo que temos da realeza nos EUA."

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