Carlos Osorio/ REUTERS
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Jovem que fugiu da Arábia Saudita chega ao Canadá após receber asilo

Rahaf Mohamed al-Qunun foi recebida pela ministra das Relações Exteriores, Chrystia Freeland

AFP, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2019 | 19h45

TORONTO - Rahaf Mohamed al-Qunun, a jovem saudita que chamou a atenção do mundo depois de fugir da família e solicitar asilo no exterior, chegou neste sábado (12) ao aeroporto de Toronto, onde foi recebida pela ministra das Relações Exteriores do Canadá, Chrystia Freeland.

A saudita, que desembarcou em Toronto usando um boné azul e um casaco de moletom com a inscrição Canadá, diz fugir da violência física e psicológica de sua família, motivo pelo qual o premiê Justin Trudeau decidiu lhe conceder asilo.

"Ela queria que os canadenses vissem que chegou ao Canadá", acrescentou Freeland, ao lado da jovem. A ministra elogiou a "coragem" de Rahaf, a quem deu as boas-vindas "a seu novo lar".

A chegada da jovem a Toronto é o epílogo de um caso que mobilizou vários países por uma semana, depois que ela divulgou sua situação pelo Twitter.

Ela foi detida na semana passada, ao chegar a Bangcoc, vinda do Kuwait, onde tinha conseguido escapar de sua família. 

Inicialmente, as autoridades tailandesas ameaçaram deportá-la de volta para casa, a pedindo da Arábia Saudita.

Mas Rahaf se entrincheirou em um quarto de hotel no aeroporto, tuitando várias mensagens e vídeos desesperados, com os quais rapidamente chamou a atenção do mundo.

Ela também disse à Human Rights Watch que pretendia renunciar ao Islã, o que a colocaria em "grave perigo", segundo a ONG.

Depois de uma mobilização a seu favor nas redes sociais, as autoridades tailandesas renunciaram à ideia de deportá-la e lhe permitiram sair do aeroporto com representantes do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur).

Arábia Saudita é um dos países mais restritivos do mundo para os direitos das mulheres, que precisam se submeter à tutela de um homem, seja o pai, o marido ou outro, o qual exerce sobre elas uma autoridade arbitrária e toma seu lugar nas decisões importantes.

Rahaf se negou a ver o pai, que viajou para a Tailândia e se opôs à sua partida.

Tensões entre Riad e Ottawa

Após uma mobilização ao seu favor pelas redes sociais, as autoridades tailandesas desistiram da ideia de deportar a jovem e lhe permitiram deixar o aeroporto com representantes do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur).

"Não duvido que será rapidamente atendida do ponto de vista material pelas autoridades canadenses e as ONGs, que também farão o que for necessário para que possa retomar os estudos que diz ter interrompido por pressão de sua família", disse o advogado francês da moça, François Zimeray, entrevistado pela AFP antes da chegada dela a Toronto. 

Depois de o caso vir à tona, a Polícia tailandesa pôs Rahaf sob a proteção da Acnur na Tailândia e essa agência da ONU apresentou um pedido de asilo a vários países, inclusive a Austrália, em um primeiro momento.

Na tarde de sexta-feira, o premiê canadense, Justin Trudeau, confirmou que o Canadá havia lhe concedido o asilo.

"Estamos encantados de fazer isso, já que o Canadá é um país que reconhece a importância de defender os direitos humanos e das mulheres no mundo", declarou Trudeau à imprensa, pouco depois de as autoridades tailandesas anunciarem a partida da adolescente rumo ao país norte-americano.

Esta decisão pode reacender as atuais tensões entre Riad e Ottawa. A Arábia Saudita anunciou em agosto a expulsão do embaixador canadense, chamou o seu para consultas e suspendeu qualquer nova relação comercial ou investimento com o Canadá devido às duras críticas do governo de Trudeau ao reino muçulmano ultraconservador.

As autoridades canadenses criticavam Riad pela detenção de ativistas pró-direitos humanos sauditas, entre eles Samar Badaui, irmã do blogueiro preso Raef Badaui, cuja esposa e três filhos vivem refugiados em Quebec. 

O caso da jovem ocorreu em um período em que muitos olhares se voltam à questão do respeito aos direitos humanos no país árabe, meses depois do assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi na Turquia./ AFP

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