Luis Eduardo Noriega/EFE
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Jovens à frente da crise colombiana; leia artigo  

Marginalizados, oprimidos e se sentindo impotentes quanto ao seu futuro, esses jovens estão no centro dos protestos que entram agora na terceira semana e sem um fim à vista

Mauricio Cárdenas/ Americas Quarterly, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2021 | 05h00

“Queremos oportunidades, não esmolas”, disse-me um jovem líder de um bairro de classe operária em Medellín, no sábado. Sua mensagem foi clara: se o governo tentar resolver a revolta social que tomou conta da Colômbia oferecendo mais dinheiro, nada vai melhorar. O caminho é ajudar os jovens a progredir, canalizar seus talentos e seguir na direção de ícones culturais colombianos como J. Balvin ou Karol G. Nossa juventude não pode ficar encerrada em suas casas, onde tem sido forçada a permanecer por muito tempo. Os jovens pertencem ao mundo exterior.

Sua reclusão da sociedade começou bem antes da pandemia. Naturalmente, a covid-19 piorou a situação. A pobreza urbana aumentou 10 pontos porcentuais em 2020, para 42%. Em Bogotá e Cali, aumentou 13 e 14 pontos porcentuais, respectivamente. Quase 2,1 milhões de pessoas empobreceram no último ano em Bogotá, Cali e Barranquilla, as três maiores cidade do país. 

A parcela de colombianos entre 14 e 25 anos de idade que não estudam nem trabalham aumentou para 27,1% em 2020, em comparação com 21,9% um ano antes. Marginalizados, oprimidos e se sentindo impotentes quanto ao seu futuro, esses jovens estão no centro dos protestos que entram agora na terceira semana e sem um fim à vista.

Esta não é uma crise típica a que o mundo está habituado a ver na Colômbia. Não partiu das áreas rurais isoladas onde as guerrilhas, o crime organizado e traficantes de droga coexistem; na verdade a pobreza no campo diminuiu um pouco no ano passado. Este também não é mais um episódio na longa história do narcoterrorismo; membros de grupos como o ELN e dissidentes das Farc podem estar presentes nas manifestações, mas não são os principais impulsionadores dos protestos. É sempre tentador acusá-los por tudo que ocorre de errado na Colômbia, mas nem sempre é correto.

Desta vez, é a Colômbia jovem e urbana que rejeita o status quo. Existe uma desconexão entre os problemas quotidianos e a política colombiana, onde as divisões e a acrimônia consomem os noticiários, mas não ajudam os jovens a melhorar sua vida. Eles têm aspirações e o país vem falhando com eles.

Os políticos não ajudam. São parte do problema. Nas pesquisas, os jovens citam a corrupção como sua principal preocupação, bem mais do que as condições econômicas terríveis e cada vez piores que enfrentam. Este é um movimento sem líderes. Não está associado a um nome específico ou um rosto visível. O que o torna ainda mais forte e também muito mais difícil de entender e responder a ele. E requer ações corajosas, uma mensagem clara e a criação de novas lideranças.

Uma reforma fiscal foi o desencadeador imediato dos protestos. Pedir à classe média – aqueles que ganham entre US$ 500 e US$ 1 mil por mês – para começar a pagar um imposto sobre a renda e o IVA sobre produtos essenciais foi um erro. A retirada do projeto de reforma não solucionou nada, mostrando que o problema é mais profundo. 

A ordem é agilizar a maneira de sair da pandemia e pôr fim à série de lockdowns e toques de recolher, cada vez mais ineficazes. O país necessita desesperadamente de mais vacinas e Washington até agora não tem sido receptivo aos pedidos de ajuda da Colômbia. O presidente, Joe Biden, deveria prestar atenção ao que vem ocorrendo.

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Do lado fiscal, poucos duvidam que a Colômbia necessita de receitas adicionais para pagar parte de suas dívidas decorrentes da pandemia e começar – em 2022 – a estabilizar suas contas públicas. Agências de classificação já disseram que, se não forem adotadas medidas claras nesta direção, o país corre um sério risco de rebaixamento, perdendo seu grau de investimento, o que colocará os títulos colombianos na categoria de alto risco.

As associações comerciais entendem isso muito bem e fizeram uma contraproposta para o governo bem antes de os distúrbios começarem. Eles arcariam com mais custos numa reforma mais moderada que ainda pagaria pelas despesas adicionais para reduzir as tensões sociais. Mas o governo, de início, insistiu no seu plano, evitando um aumento dos impostos corporativos. O Centro Democrático, partido do presidente, rejeitou o projeto e outros partidos seguiram o mesmo caminho, provocando uma crise política antes dos protestos em massa. Agora, a questão ficou muito mais ampla.

Eleições

O fato de tudo isso estar ocorrendo um ano antes das eleições para presidente e para o Congresso não é uma coincidência. Gustavo Petro, candidato de oposição de esquerda, vem liderando as pesquisas, sugerindo que há um descontentamento e as pessoas querem alternativas. Se o resultado desta onda de protestos for mais repressão e não um diálogo construtivo, podemos chegar ao momento crucial que colocará a Colômbia na direção do populismo e da demagogia de esquerda. Se as negociações levarem a decisões corajosas que melhorem a coesão política e social, a moderação e o pragmatismo ainda podem ter uma oportunidade nas eleições do próximo ano.

O que parece descartado é a continuidade da política do ódio e da polarização que caracterizaram a Colômbia em anos passados. A Colômbia é um país desigual, regionalmente dividido e muito diversificado. Governar de um lado do espectro político é receita para o desastre. O presidente, Iván Duque, ainda tem tempo para trazer para seu lado indivíduos que representam setores que foram excluídos e marginalizados, o que tornaria sua vida, e a da Colômbia, muito mais fácil. Mas também moveria o espectro político para o centro, algo que seu próprio partido político resiste.

O Comité del Paro, comitê de greves com o qual o governo vem negociando, apresentou uma lista de demandas com 18 pontos. O primeiro item da agenda é a implementação ampla e incondicional do acordo de paz de 2016. Isso diz muita coisa. A Colômbia precisa despolitizar o acordo de paz e torná-lo parte da solução do problema atual, não um problema do passado.

Uma maneira de avançar é deixar de pensar no acordo de paz em termos de concessões feitas a antigos combatentes das Farc que são odiados. O acordo de paz tem a ver com a criação de um novo contrato social, em que grupos marginalizados terão mais representação política, ao mesmo tempo que o Estado levaria estradas e escolas para algumas áreas da Colômbia pela primeira vez na história. Todas essas medidas são necessárias, com ou sem um acordo de paz. Mas, se ajudarem a pôr fim ao conflito, serão mais bem-vindas.

A lista apresentada também inclui quatro pontos relacionados ao meio ambiente, que vão desde o fim do desmatamento até mais controle do uso dos recursos naturais e proteção das espécies em risco e redução das emissões de carbono pelo transporte público. Tudo isso parece em sintonia com a posição dos jovens, na Colômbia e em outras partes do globo.

Empregos

Mas a tarefa mais importante, certamente, é solucionar a crise dos jovens das áreas urbanas, que estão no centro da agitação. Não há soluções fáceis. Reformular o debate político – focado demais no acordo de paz – é essencial. Os novos itens devem ser os que são relevantes para os jovens no mundo de hoje. 

A oferta de bolsas de estudos para universidades públicas e ensino técnico, como o presidente anunciou esta semana, é uma medida positiva. Mas garantir empregos também é importante. Transformar o programa de proteção do emprego criado durante a pandemia e convertê-lo numa iniciativa de criação de emprego é necessário. 

Contratar trabalhadores na Colômbia é extremamente caro em razão das contribuições para a previdência social e outras cobradas na folha de pagamento. Uma dispensa é necessária, incluindo a oferta de subsídios para salários pagos aos jovens trabalhadores. Criar uma linha de crédito especial, com capital para abertura de novas empresas para jovens empreendedores também é crucial. As políticas para o clima são um ótimo instrumento para criar confiança entre os jovens e o governo.

Na minha opinião, estamos presenciando o início de uma era em que os jovens serão os agentes das mudanças. Eles estão dizendo aos políticos tradicionais que estão prontos para substituí-los com o fim de tornar o país mais democrático, menos corrupto, menos desigual. Não sabemos quem vai liderar esta mudança. Mas sabemos que não será a velha-guarda. E esperemos que não sejam os oportunistas que tentarão se apropriar do momento apenas para plantar as sementes de mais frustração no futuro./ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É PESQUISADOR DO CENTER ON GLOBAL ENERGY POLICY, DA UNIVERSIDADE COLUMBIA, E FOI MINISTRO DAS 

FINANÇAS DA COLÔMBIA DE 2012 A 2018

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