Sergey Ponomarev/The New York Times
Sergey Ponomarev/The New York Times

Jovens afegãos combatem ao lado do governo sírio

Fugindo da pobreza e da guerra, muitos cidadãos do país estão procurando trabalho em países vizinhos; recentemente, cresceu o número de jovens que tem lutado ao lado dos iranianos na Síria pela promessa de receberem visto de moradia no país

Kareem Fahim / The New York Times, O Estado de S. Paulo

09 Agosto 2016 | 14h12

HERAT, AFEGANISTÃO - Uma mulher aqui na cidade ocidental afegã de Herat disse que implorou ao filho que não fosse lutar na Síria, mas ele partiu mesmo assim, deixando a esposa e três filhos para trás. Um homem que ouviu a história veio lhe contar que seu filho havia partido há dois meses e, desde então, a família está desesperada por notícias dele.

Outra mulher, Khadija, cujo filho Hassan havia se juntado às brigadas afegãs que lutam ao lado do governo sírio, disse que ele tinha ido pelas mesmas razões da maioria dos jovens do bairro: "Não conseguia arrumar um emprego", disse ela. Um adolescente ao lado do grupo, escutando o que diziam os pais, falou que essas não eram histórias isoladas entre os xiitas afegãos de Herat. "O bairro está cheio deles".

O Afeganistão está se esvaziando, pois seus cidadãos fugiram da pobreza e da guerra, muitos procurando trabalho no Paquistão, no Irã ou em países do Golfo Pérsico, ou arriscando a trilha perigosa para a Europa. Mas esse padrão de emigração específico - o de milhares de jovens seguindo para o vizinho Irã e, de lá, saindo para lutar ao lado do governo sírio e seus aliados - provoca uma angústia imensa para as famílias daqui e para o governo.

Ao deixar um país assolado por décadas de guerra, os jovens afegãos que escolhem o caminho para a Síria acabam correndo perigo na linha de frente sangrenta de Alepo, de Homs ou de outros campos de batalha. A mídia estatal iraniana e algumas autoridades afegãs sugerem que centenas foram mortos em batalhas durante o ano passado.

Milhares de afegãos, quase todos muçulmanos xiitas da minoria étnica hazara, lutaram na Síria nos últimos anos, servindo nas brigadas que apoiam o governo do presidente Bashar Assad, de acordo com seus parentes e comandantes na Síria. A maioria dos homens é recrutada na diáspora afegã no Irã, um aliado crucial do governo Assad, mas, de um ano para cá, cada vez mais homens estão vindo diretamente do Afeganistão, em parte por causa da situação complicada da economia afegã, dizem parentes e autoridades.

A promessa de salários urgentemente necessários - ou pelo menos uma compensação por sofrimento ou morte, muitas vezes paga pelo governo iraniano - pouco fizeram para confortar as famílias deixadas para trás ou para diminuir seu pesar pela miséria que forçou seus filhos a fugir.

No caso de Khadija, a decisão do filho Hassan de ir para a Síria veio depois que seu marido, que é deficiente, perder as terras, mas ela garante que os dois pediram a Hassan que não fosse.

O êxodo também revela o fracasso do governo em aliviar o sofrimento dos hazaras, há muito marginalizados no Afeganistão e discriminados por serem muçulmanos xiitas. Confrontado com o espetáculo constrangedor de ter seus cidadãos lutando por um governo estrangeiro, o governo do Afeganistão também teve que lidar com a perda de homens sãos em uma época em que busca desesperadamente recrutas para sua própria guerra contra os insurgentes do Taleban.

Embora os afegãos que partem para a Síria logo acabem enfrentando as misérias de mais uma guerra incessante, eles têm uma vantagem sobre outros migrantes: há uma possibilidade menor de serem deportados e forçados a regressar ao Afeganistão. Na fronteira com o Irã, a 90 minutos de carro de Herat, pelo menos 30 ônibus chegam várias vezes por semana, cheios de deportados do Irã. Alguns trazem famílias que vivem ilegalmente no Irã há anos.

Mas a maioria era jovem: alguns com até 10 anos, de acordo com funcionários da Organização Internacional de Migrações, que cruzaram a fronteira desesperados para encontrar trabalho. Muitos disseram que retornariam ao Irã assim que pudessem.

Alguns dos combatentes seguem para a Síria por motivos religiosos, vendo a batalha como uma guerra contra os extremistas sunitas ou como modo de defender locais sagrados xiitas na Síria, juntamente com outros milicianos do Líbano ou do Iraque. Outros foram forçados ou enganados, dizem grupos de direitos humanos, mas a maioria foi atraída por benefícios financeiros, incluindo a promessa de residência legal para os combatentes e suas famílias no Irã, como explicou Abdul Rahim Ghulami, autoridade local em Herat que contou que seu cunhado era comandante de uma unidade afegã lutando em Alepo.

O governo do Irã fornece algumas semanas de treinamento e envia os homens de avião para a Síria, onde se juntam a uma das brigadas afegãs. Essas unidades são às vezes vistas com desconfiança por seus próprios aliados: em entrevistas na Síria, alguns outros combatentes de milícias pró-governo criticam os afegãos por serem jovens demais e mal treinados.

Um lojista em Damasco chamado Ahmed, que trabalha perto da Mesquita Sayyida Zainab, local reverenciado por xiitas, disse que os números de combatentes afegãos guardando a mesquita tinham aumentado nos últimos seis meses. Eles eram um grupo triste que se queixava de sua vida no Irã ou no Afeganistão quando conversaram, disse ele, mas acrescentou que tinham pouca escolha se quisessem sustentar suas famílias. Ao menos quando morrem, o fazem como mártires em uma guerra santa, acrescentou, dando apenas seu primeiro nome porque não queria ser punido.

As baixas entre os combatentes afegãos eram altas, segundo Ghulami, que viveu no Irã por 24 anos. Ele disse que visitou a cidade iraniana de Mashhad há dois meses e viu que seu quarteirão afegão estava coberto de bandeiras negras, que sinalizam uma casa em luto.

É difícil calcular número de homens que deixam o Afeganistão, pois a desaprovação do governo leva as famílias a se calarem. Ghulami, que serve como prefeito em Jabrail, distrito hazara em Herat, com aproximadamente cem mil habitantes, estima que 20% das famílias tenham alguém servindo na Síria. Não há como confirmar esse número, pois não existem funerais de combatentes afegãos, nem bandeiras negras para honrar os mortos.

Mas em Jabrail, além de outro bairro hazara de Herat chamado Khatim al-Anbiya, é fácil encontrar os parentes ou amigos que os combatentes afegãos deixaram para trás.

Em um quiosque de cigarros onde trabalhava em Jabrail, um menino chamado Sayed Ali se lembrava de seu vizinho e colega, Habibullah, de 20 anos, que fugiu para a Síria há algum tempo, quando ainda era adolescente. Este ano, alguns disseram que Habibullah havia morrido na guerra. A família fechou a casa e se mudou para o Irã, recebendo residência legal lá por causa da morte do menino, disse Sayed Ali.

Outro adolescente, chamado Jawad, desapareceu de sua casa em Khatim al-Anbiya há um ano e meio, deixando sua família acreditar que havia ido para o Irã para encontrar trabalho, de acordo com o seu tio, Mohamed Ibrahim.

A última vez que os pais ouviram falar de Jawad, ele disse que estava na Síria e contou ao pai que estava se preparando para voltar para casa, mas oito ou nove meses atrás, um homem trouxe a notícia de que Jawad havia morrido com um tiro na cabeça.

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