Emilee McGovern/ March For Our Lives
Emilee McGovern/ March For Our Lives

Jovens ativistas preparam agenda política para eleição de 2020 nos EUA

Organizados pela internet, movimento de adolescentes americanos que defendem maior controle na venda de armas começou após massacre que deixou 17 mortos em escola da Flórida

Beatriz Bulla, Correspondente em Washington, e Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2018 | 05h00

A campanha presidencial de 2020 nos EUA terá um novo componente: a influência do grupo de jovens que defende restrições na venda de armas após o massacre de uma escola de Parkland, que deixou 17 mortos em fevereiro. Segundo eles, os resultados das eleições de meio de mandato fortaleceram o movimento, que aposta na renovação da Câmara dos Deputados - formada por pessoas mais novas - como porta de entrada ao Senado e à presidência. 

“Muitos jovens foram eleitos e tentaremos trabalhar com eles para mudar a lei e tornarmos as pessoas mais seguras”, afirma Ryan Deitsch, de 19 anos, sobrevivente do massacre em Parkland e um dos fundadores do movimento March For Our Lives. A psicóloga Wendy Mogel, que entrevistou jovens entre 2015 e 2016 para o livro Voice Lessons for Parents, acredita que os resultados do movimento iniciado em março serão progressivos. “Os manifestantes que hoje estão com 17 anos, já votarão na próxima eleição. Eles não quiseram esperar para tentar mudar alguma coisa. Não acredito que isso diminua.”

O March for Our Lives nasceu da união de sobreviventes do massacre na Flórida e reuniu em uma marcha em Washington mais de 800 mil pessoas. Organizada pela geração dos “millenials” (nascidos após 2000), a ação cresceu e se espalhou por diversas cidades dos EUA e de outros países. “O interessante sobre esses adolescentes é que eles querem mais regras, querem que as instituições se fortaleçam e os protejam. Eles querem que a idade permitida para a compra de armas seja aumentada e não diminuída”, afirma Neil Howe, historiador e autor do livro Millennials Rising. 

Para ele, o que justifica o alcance dos protestos é a tecnologia na qual a geração nasceu inserida. “Eles usaram a sofisticação tecnológica para se organizar politicamente. Eles viraram uma geração muito poderosa. Veremos o crescimento da sua presença na eleição presidencial de 2020. As manifestações pós-Parkland foram um sinal disso”, diz Ryan. “O resultado da eleição de meio de mandato (em novembro) mostrou o poder que os jovens têm e, em breve, os congressistas terão de prestar atenção nos jovens.” 

Tradicionalmente, a nova geração é tratada como a geração sem engajamento político, porque cresce na época em que a tecnologia reinventa o mundo e a política está imersa em escândalos e descrédito. Mas, para Wendy, a capacidade de união transformou a luta pelo controle de armas nos EUA. “Diferentemente dos protestos dos anos 60 contra a Guerra do Vietnã, que foram violentos, esses jovens sabem como se organizar rapidamente e de forma pacífica. Eles se organizam rápido porque estão conectados. Eles nasceram, em sua maioria, no mundo da tecnologia e do iPhone.”

Ryan defende o otimismo ao citar os congressistas apoiados pela Associação Nacional do Rifle (NRA), o lobby das armas nos EUA, que perderam as eleições de meio de mandato. Um dos casos emblemáticos é o da deputada Barbara Comstock, que recebeu doações da NRA, mas não foi reeleita. “Fomos capazes de derrubar 40 políticos que estavam amparados pela NRA, uma organização que tem gastado muito tempo e dinheiro para silenciar pessoas como nós. Para nós, causar um efeito nessa máquina política é excepcional”, afirma Ryan.

A nova geração tem visões políticas diferentes de outras gerações. Eles mostram uma visão mais liberal em temas como imigração, mudança climática, identidade de gênero e uso de força militar. A organização dos protestos e a forma como desejam interferir na política - sem necessariamente fazer parte dela - são um reflexo disso. 

Ryan acredita ser mais fácil fazer política “de fora para dentro”, o que explica a opção dos líderes do movimento de não disputarem cargos. Segundo ele, o grupo não quer comprometer seus ideais em troca de apoio. “Quando pensamos em protestos, lembramos dos anos 60 e 70. Pensamos em atos contra o governo, em oposição a qualquer tipo de autoridade ou regras criadas pelos mais velhos.

Agora, a situação é diferente”, afirma Howe. Para o historiador, o engajamento dos jovens é um reflexo da apatia de gerações anteriores. “Quando se tem um longo período de gerações sem participação política, o governo passa a ter falhas e a próxima geração tende a ser politicamente forte. A geração anterior a essa não tem o costume de votar em grande número.”

Segundo Wendy, outra diferença é a inclusão. “Agora, os manifestantes têm o apoio dos pais. Eles estiveram juntos nas marchas.” Eve Levenson, uma das responsáveis pelo March For Our Lives, diz que antes das eleições de 2020 é preciso acompanhar o trabalho dos congressistas eleitos em 2018. Para isso, ela afirma que o próximo passo é unir especialistas no controle de armas, jovens e congressistas, para fazer pressão. “Os políticos serão tolos se não levarem os protestos a sério, porque esses jovens serão os próximos eleitores”, diz Wendy. 

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