Jovens bielo-russos sonham com a ''Revolução Azul''

?Última ditadura da Europa? vive como se o comunismo não tivesse terminado

Cristiano Dias, O Estadao de S.Paulo

18 de maio de 2008 | 00h00

Em tempos de expansão da União Européia e quase duas décadas após a dissolução da União Soviética, sobrevive no coração da Europa um dos últimos resquícios de despotismo da era comunista. Na Bielo-Rússia, o tempo não passou. Os meios de comunicação continuam controlados pelo Estado, a lista de prisioneiros políticos é quilométrica e o serviço secreto ainda se chama KGB.Diplomatas americanos se referem ao país como "a última ditadura da Europa". Desde sua libertação da órbita soviética e da promulgação da Constituição, em 1994, os bielo-russos conheceram apenas um presidente: Alexander Lukashenko, um ditador clássico. "Em meu país, não haverá revolução laranja, rosa ou cor-de-banana", afirmou recentemente Lukashenko. "Essas revoluções coloridas são pura bandidagem."A contragosto do presidente, no entanto, um grupo de dissidentes, liderados pelos estudantes da chamada Frente Jovem, já escolheu até a cor da revolução bielo-russa: azul, em alusão ao jeans, considerado um símbolo da cultura ocidental, que virou símbolo da luta contra o regime de Lukashenko.Por enquanto, a Revolução Azul não passou de manifestações na capital, Minsk, todas dispersadas com extrema violência pela polícia. Em uma delas, Dmitri Fedaruk, de 19 anos, um dos líder da Frente Jovem, foi preso e torturado por agentes da KGB. Alguns líderes estudantis, como Dmitri Dashkevich, de 25 anos, e Andrey Kim, de 22, foram condenados a um ano e meio de prisão. Organizações de direitos humanos publicam semanalmente uma lista atualizada de presos políticos.Em seus 14 anos de poder, Lukashenko implementou o que chama de "socialismo de mercado", estatizando boa parte do setor privado. O país sobrevive à custa de gás e petróleo subsidiados pela vizinha Rússia, com a qual o governo bielo-russo vem discutindo desde 1996 uma confederação - que nunca saiu do papel.Diante das restrições internacionais a seu regime, Lukashenko se aproximou do Irã e da Venezuela. Em troca de petróleo, a Bielo-Rússia ofereceu sua moeda mais forte: as sobras do arsenal militar soviético. Aos iranianos, ofereceu um sistema russo de defesa antiaérea. Ao presidente Hugo Chávez, que visitou o país em 2006, também pôs à disposição um pacote de armamento antiaéreo.Enquanto aguardam sinais da Revolução Azul, os EUA e a União Européia tentam conter o regime com sanções. Em abril, Lukasehnko foi proibido de entrar na UE e vários ativos financeiros da Bielo-Rússia foram congelados. "Foi uma iniciativa apenas simbólica, que não muda nada porque o dinheiro está em outro lugar", disse ao Estado Olga Stuzhinskaya, do Escritório para uma Bielo-Rússia Democrática, com sede em Bruxelas. Segundo Washington, Lukashenko teria US$ 1 bilhão espalhados em diferentes contas, muitas na Suíça, que não faz parte da União Européia.

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