Jovens cambojanos desconhecem Khmer

Filhos de sobreviventes do regime comunista que nos anos 70 dizimou 1,7 milhão de pessoas, ou 26% da população, ignoram período de horror

Seth Mydans, The New York Times, TRAPAENG SVA, CAMBOJA, O Estadao de S.Paulo

11 de abril de 2009 | 00h00

Trinta anos depois do fim do massacre, o Camboja sofre de um choque de gerações particularmente doloroso - entre aqueles que sobreviveram ao regime brutal do Khmer Vermelho e seus filhos, que não sabem quase nada sobre aquela época."Eu costumava contar as histórias aos meus filhos, mas eles quase não acreditavam nelas", disse Ty Leap, de 52 anos, vendedor de macarrão e sucos de frutas numa barraca na rua. "Não gosto disso, mas o que podemos fazer? É mesmo inacreditável que tais coisas tenham acontecido." Entre 1975 e 1979, sob o comando do ditador Pol Pot, o Khmer Vermelho liderou o regime comunista mais fanático do pós-guerra. Em nome de uma utopia camponesa igualitária, os intelectuais e cerca de 90% dos monges budistas foram massacrados. No total, 1,7 milhão de pessoas morreram por tortura, trabalhos forçados, inanição ou doenças.Aqui, quase todos a partir de uma certa faixa etária contam histórias de horror, abuso, fome e da perda de membros da família. "Os mais velhos ficam tão furiosos ao ver que seus filhos não acreditam nas histórias que chegam a dizer ?queria que o Khmer Vermelho voltasse; só então vocês acreditariam?", disse Leap.Cerca de 70% da população cambojana tem menos de 30 anos, e 4 em cada 5 membros dessa nova geração sabem pouco sobre os anos do Khmer Vermelho, segundo pesquisa da Universidade da Califórnia, Berkeley.Essa ignorância - entre jovens e idosos - também parece envolver os julgamentos de cinco das principais figuras do Khmer Vermelho, que começaram no mês passado - processo que deve, em parte, dar início a um movimento de cura capaz de pôr fim ao trauma histórico.Parte das audiências do julgamento é transmitida e os jornais trazem reportagens a respeito delas, mas mesmo na vila de Trapaeng Sva, perto de um antigo campo de extermínio 40 quilômetros ao sul da capital, Phnom Penh, muitos disseram não saber que os julgamentos tinham começado. "Não acompanho toda a programação, devo ter perdido essa notícia", disse Khieu Hong, de 36 anos, que escutava um rádio. Hun Ret, 36 anos, um negociante de gado que mora na região, manifestou apoio ao julgamento destinado a castigar os criminosos do Khmer. Mas ficou surpreso quando lhe contei que os julgamentos já tinham começado.IGNORÂNCIANovamente o estudo de Berkeley pareceu sustentar a noção de uma ignorância generalizada. Apenas 15% dos participantes da pesquisa disseram estar bem informados sobre os julgamentos, apesar de essa proporção ter provavelmente aumentado desde que as audiências começaram. O estudo teve como base as entrevistas realizadas com mil pessoas nas últimas três semanas de setembro.Além da questão da idade, a ignorância em relação ao passado parece ser fruto de uma combinação de cultura e política pública, e quem sabe também da passividade de um povo tão exaurido pela história que não é mais capaz de confrontar seus próprios traumas.Os julgamentos são realizados sob pressão da ONU e dos governos internacionais num país que talvez preferisse optar pela abordagem do seu primeiro-ministro, Hun Sen. Ele propôs certa vez que o Camboja "cavasse um grande buraco para enterrar o passado".Hun Sen era comandante intermediário do Khmer, apesar de aparentemente não haver provas de seu envolvimento em crimes graves. Diversos membros de destaque do Partido Popular do Camboja e do Exército são também ex-membros do Khmer Vermelho. Por causa dessa corrente cruzada na história recente do país, o período do Khmer Vermelho não foi lecionado nas escolas, fazendo com que alguns professores sobreviventes se sentissem órfãos dos próprios alunos. Foi preparado um novo livro didático para o ensino médio, mas seus exemplares chegarão às mãos de apenas parte dos estudantes cambojanos."Converso com eles, mas os jovens nem sempre acreditam no que conto", disse Kann Sunthara, de 57 anos, professora de química. "Meu pai, meu marido, meu irmão e minhas irmãs morreram com muitos outros. Às vezes, quando estou contando sobre eles, sou obrigada a virar de costas e chorar." Outro professor, Eam Mary, de 41 anos, que foi torturado quando menino sob o regime do Khmer, disse que só consegue reter a atenção dos alunos quando conta histórias esquisitas, como as ocasiões em que foi obrigado pela fome a comer filhotes de rato, ou lagartos."Eles falam ?eca, que nojo!?" disse ele. "E ao mesmo tempo alguns dos alunos no fundo da classe estão brincando sem prestar atenção." O choque de gerações parece evidente aqui, perto do antigo campo de extermínio, onde dúzias de crânios e ossos foram preservados num memorial improvisado, como prova de que o massacre de fato ocorreu.FRASESTy LeapVendedor de macarrão"Alguns dos mais velhos ficam tão furiosos ao ver que seus filhos não acreditam, que dizem ?queria que o Khmer Vermelho voltasse, só então vocês acreditariam?"Kann SuntharaProfessora de química"Meu pai, marido, irmão e irmãs foram mortos pelo Khmer. Quando conto sobre eles (aos jovens), viro de costas e choro"

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.