Anna Fifield / Washington Post
Anna Fifield / Washington Post

Jovens chineses encaram o Partido Comunista como caminho para vida melhor

Mesmo com crises, PC da China está longe de diminuir sua envergadura no plano interno, como membros do governo Trump acreditam

Anna Fifield / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2020 | 08h00

CHANGSHA, CHINA – A umidade opressiva do verão chinês não amainou o entusiasmo da multidão de jovens por volta dos seus 20 anos homenageando Mao Tsé-tung, o pai fundador da China comunista.

Alguns estavam em trens miniatura, como os vistos em feiras, e outros corriam quatro quilômetros sob o calor para chegar à estátua gigante de um Mao jovem – equivalente ao Monte Rushmore – , que está de frente para o rio Xiangjiang.

“Minha avó ficou tão feliz quando soube que eu viria a Changsha”, disse Xia Yuxin, universitária de 22 anos que estuda em Pequim, posando num dia recente para uma selfie ao lado do Grande Timoneiro. “Ela me disse, ‘você tem de ir visitar o Chairman Mao’”.

Perto dela, recrutas suados do 23º Metallurgical Construction Group, que faz parte do da empresa de mineração e construção estatal, estavam reunidos para declamar um dos poemas de Mao, “Changsha". “Pergunto, nesta terra infinita/Quem governa o destino do homem?”, eles declamavam em uníssono.

A resposta, neste momento, é o Partido Comunista Chinês.

Depois de sete décadas no poder, o partido deparou com desafios potencialmente existenciais no ano passado, desde os protestos pró-democracia em Hong Kong e uma forte desaceleração econômica a um coronavírus devastador e, mais recentemente, inundações jamais vistas que causaram grande destruição na China central.

Mas longe de diminuir sua envergadura no plano interno, como membros do governo Trump acreditam, a resposta do partido a essas crises ajudou a consolidar o apoio dos seus membros existentes e futuros, ou pelo menos neutralizar as queixas.

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Os chineses, que em fevereiro criticaram a maneira como o partido administrou a pandemia de coronavírus, agora refletem mais positivamente sobre sua experiência, quando observam o exemplo americano e o quão pior poderia ter sido a epidemia.

“É estranho achar que o Partido Comunista está mais fraco porque todos nós sentimos que nosso país e nosso partido ficaram ainda mais fortes diante desta epidemia”, disse Xia, que estava vestida mais como uma pop star do que uma estrela de propaganda. Como seu pai, ela se inscreveu no Partido com 20 anos de idade.  

Num confronto que não é mais apenas econômico, mas ideológico, o governo Trump agora visa diretamente ao Partido Comunista. Liderando as acusações está o secretário de Estado Mike Pompeo que, durante um discurso na biblioteca presidencial Nixon, no mês passado, detonou “os objetivos de hegemonia do Partido Comunista Chinês e esboçou uma estratégia para 'mudar de fato a China comunista'”.

Para Wang Wei, professor na unidade de Hunan da Communist Party School,  os comentários feitos por Pompeo revelam a preocupação do governo Trump com a possibilidade de a China suplantar os Estados Unidos. “Isto apenas mostra que eles temem um Partido Comunista mais forte depois que mostramos nossa força na batalha contra o coronavírus”, disse ela.

É fácil para as pessoas fora da China verem o Partido Comunista como um retorno aos tempos soviéticos, o que, sob muitos aspectos, é verdade.

Ele governa a China como um Estado de um único partido, sem nenhuma oposição, censura fortemente a Internet, dificultando o acesso a informações que não se encaixam na narrativa oficial. E realiza reuniões monótonas onde os homens se sentam num palco cercados por bandeiras vermelhas, falando sem cessar de planos econômicos importantes e de se manter fiéis à sua missão.

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Mas na China a realidade é mais complicada. O partido continua limitado por muitas das restrições que foram delineadas por Mao e seus camaradas nos anos 1920 e esses pronunciamentos sugerem que há uma inquietação subjacente com os desafios enfrentados pelo país, mas a organização é relevante para a vida de muitas pessoas.

Ser membro do Partido significa melhores perspectivas de educação e melhores empregos, mais casamentos politicamente vantajosos e apartamentos mais interessantes. Para muitos é a chance de um futuro mais brilhante.

“Se você quer ter um trabalho importante, trabalhar em uma universidade ou em uma organização social, se não for membro do partido não será promovido”, disse Zheng Yongnian, cientista político chinês e professor na National University em Cingapura. “Cada vez mais os jovens hoje são bem nacionalistas, e assim estão escolhendo ingressar no partido”.

Cerca de 80% dos recrutados no ano passado tinham menos de 35 anos de idade, segundo estatísticas oficiais. Tornar-se membro é um processo árduo que começa apenas quando o interessado completa 18 anos.

Depois de enviar uma carta delineando porque ele, ou ela, acredita no partido – e também reconhece suas deficiências pessoais – o candidato tem de passar por cursos e exames, além de fornecer cartas de recomendação de dois membros do partido.

Os que têm sucesso iniciam um período probatório que dura pelo menos um ano, mas com frequência se estende por mais tempo, e a admissão não é garantida. Mas os que chegam ao final devem prestar juramento, prometendo “estar sempre pronto para me sacrificar pelo partido, e o povo, e jamais trair o partido”.

Xi Jinping, o mais poderoso líder chinês desde Mao, intensificou a educação ideológica desde que assumiu o controle do partido em 2012 e procurou tornar suas instituições ainda mais estupendas. Uma das suas inovações foi insistir que os membros estudem o Pensamento de Xi Jinping, sua ideologia pessoal, diariamente, usando um aplicativo no smartphone.

“É preciso ficar claramente entendido que a maior particularidade nacional da China é a liderança do Partido Comunista”, afirmou Xi num artigo publicado num jornal do partido no mês passado.

Como parte dos seus esforços para confrontar a China e a liderança de Xi, o governo Trump estaria considerando proibir membros do Partido Comunista e suas famílias de viajarem para os Estados Unidos.

Os membros inscritos no Partido chegavam a quase 92 milhões no fim do ano passado. O que pode significar que 270 milhões de pessoas – um quinto da população chinesa – teria entrada proibida nos Estados Unidos.

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Embora o total de membros tenha continuado a crescer, o número foi menor sob o governo de Xi, caindo de 3,2 milhões em 2012 para apenas 1,3 milhão no ano passado.

“O partido sempre foi uma organização de massa disfarçada de elite”, disse Richard McGregor, autor do livro The Party: The Secret World of China’s Communist Rulers. “Mas uma das coisas mais surpreendente sobre o partido sob a liderança de Xi é que ele vem realmente se tornando mais uma elite. Em outras palavras, fica cada vez mais difícil ser admitido como membro”.

E Xi, de fato, quer assegurar que a adesão seja mais a pura ideologicamente.

“Eles estão eliminando aquelas pessoas apenas interessadas em utilizar sua qualidade de membro para avançar em suas carreiras ou negócio, mas que na verdade não acreditam na ideologia do partido e nem pretendem participar seriamente de seus órgãos”, disse David Gitter, presidente do Center for Advanced China Research, grupo sediado em Washington.

Algumas pessoas que aspiram ingressar no partido – sejam policiais ou enfermeiros ou estudantes – vêm usando as catástrofes ocorridas este ano para demonstrar seu compromisso para com a causa e acelerar suas candidaturas. Em fevereiro Xi declarou que os candidatos que tivessem uma atuação excepcional “na linha de frente da batalha”, poderiam aderir ao clube.

Na província de Hunan, que faz fronteira com a de Hubei, epicentro do coronavírus e onde os rios extravasaram durante as fortes inundações no mês passado, candidatos potenciais a ingressar no partido viram uma oportunidade para provar o seu valor.

A mídia estatal estava repleta de histórias de pessoas que se voluntariaram para ir a Wuhan durante o surto do coronavírus, ou, mais recentemente, trabalhar no controle das inundações.

“Como candidato ativo, quero assumir minha responsabilidade de servir a sociedade e aprender com aqueles membros modelo do partido que estão na linha de frente do trabalho de prevenção de enchentes”, disse Zhou Ziyi, de 18 anos, que estuda na Hunan Industry Polytechnic e se ofereceu como voluntário para patrulhar as barragens, segundo a mídia local.

Um dos que esperam ser admitidos está Lu, estudante de ciência dos materiais em Changsha que se candidatou há dois anos e está agora em período probatório.

“Não tenho ideia de quando me tornarei membro pleno do partido, há muitas pessoas na fila”, disse Lu, cujo pai já é membro do PC e pediu para ele usar somente o seu sobrenome quando da discussão de questões políticas delicadas.

Ele deseja ingressar no partido porque concorda com sua ideologia, mas especialmente porque deseja um futuro acadêmico – e a adesão o ajudará. Mesmo sabendo que o ingresso no Partido irá tornar difícil para ele estudar nos Estados Unidos, onde cientistas chineses são cada vez mais vistos como espiões.

Acho que muitos alunos de universidade desejam ingressar no partido”, afirmou ele. “O que é bom e ruim também, mas, no geral, o bom triunfa. Acho que muitos estudantes acreditam que, se ingressarem, poderão ajudar a orientar o partido na direção de um futuro melhor. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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