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Jovens com alta instrução lideram supremacistas

Líderes de grupos que organizaram marcha na Virgínia se dizem apoiadores de Trump e exploram a web para espalhar mensagem

Cláudia Trevisan Correspondente / Washington , O Estado de S.Paulo

17 Agosto 2017 | 05h00

Onze dias depois da eleição presidencial dos EUA, Richard Spencer usou uma saudação nazista para celebrar a chegada de seu candidato à Casa Branca. “Heil Trump! Heil nosso povo! Heil a vitória!”, declarou diante de mais de 200 supremacistas brancos e neonazistas reunidos em Washington. Alguns dos que estavam na plateia responderam levantando seu braço direito, repetindo a saudação dos seguidores de Adolf Hitler. 

Formado em Literatura e Música Inglesa, com mestrado em Ciências Humanas e doutorado em História Intelectual Europeia Moderna, Spencer representa a nova geração de líderes dos extremistas de direita americanos. Com 39 anos, ele diz ter sido o criador da expressão “alt-right”, abreviação de “direita alternativa”, que tenta dar uma nova roupagem a movimentos racistas e antissemitas.

No sábado, ele seria um dos principais oradores da marcha “Unir a Direita”, em Charlottesville, cancelada pela polícia depois de degenerar em violência. Heather Heyer, de 32 anos, foi morta quando um dos participantes do evento avançou com seu carro sobre um grupo de manifestantes que se opunha à presença dos extremistas.

A morte de Heyer foi celebrada pelo Daily Stormer, site que superou o Stormfront neste ano e se tornou o mais popular entre os neonazistas. “Nosso líder glorioso ascendeu a Deus imperador. Não se equivoque: nós fizemos isso. Se não fosse por nós, isso não teria sido possível”, disse o fundador do site, Andrew Anglin, após a eleição de Trump. No dia em que Heyer foi assassinada, ele escreveu um artigo no qual se referia a ela como uma “vagabunda, gorda, sem filhos de 32 anos”.

Em razão da ofensa, o servidor GoDaddy, que abrigava o Daily Stormer, cancelou o registro do site, que acabou se hospedando em um domínio russo após ter tentado migrar para o Google – que negou acesso a sua plataforma.

Na noite de sexta-feira, Anglin estava entre os centenas de homens brancos que gritavam “judeus não vão tomar nosso lugar”, em uma marcha com tochas no câmpus da Universidade da Virgínia, em Charlottesville. No dia seguinte, ele participou da marcha “Unir a Direita”.

Progressista em sua adolescência, Anglin disse que se tornou um fascista depois de ler o autor Noam Chomsky e “toda aquela coisa judaico-comunista”, estudar religião e conhecer o pensamento de Hitler e Benito Mussolini. Ele afirma ainda ser influenciado pelo criador de teorias conspiratórias Alex Jones e pelo terrorista doméstico Ted Kaczynski, o Unabomber, que está na prisão.

Exclusão. A alt-right é um movimento majoritariamente masculino, o que ficou evidente nas imagens de Charlottesville. Anglin é conhecido pelos comentários misóginos. “Seus piores inimigos não são judeus, homens brancos, são suas próprias fêmeas”, escreveu em 2015.

Spencer usa termos menos crus, mas defende que as mulheres tenham um papel estritamente doméstico e de reprodução. Em documentário da revista Atlantic, ele disse que os brancos vivem uma crise de identidade em um mundo multicultural. Em sua opinião, a retórica de Trump contra os imigrantes foi o que garantiu a vitória.

“Nosso sonho é uma nova sociedade, um etno-Estado que seria um ponto de encontro para todos os europeus. Seria uma sociedade com base em ideias diferentes dos da Declaração de Independência”, escreveu Spencer, que propõe uma “limpeza étnica pacífica”, sem explicar o que isso significa.

O sociólogo Peter Simi, que estuda grupos extremistas na Universidade Chapman, disse que Spencer, Anglin e outros representam uma nova geração. “Eles usam de maneira intensa a internet e redes sociais para propagar mensagens.”

Depois de cair por três anos consecutivos, o número de grupos de ódio nos EUA aumentou a partir de 2014 e chegou a um total de 917 no ano passado, de acordo com o Southern Poverty Law Center, que monitora esses movimentos. 

Os mais destacados (Ku Klux Klan, neonazistas, neoconfederados, White Power e Skinheads racistas) somam 449. Em estudo divulgado em fevereiro, a entidade disse que a vitória de Trump “eletrizou” a direita radical e deu a ela uma projeção política que não alcançava desde o fim dos anos 60.

 

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