Jovens da ‘era Chávez’ lideram manifestações

Como muitos, Enrique Altimari, um dos líderes dos protestos, cresceu sob o bolivarianismo

Luiz Raatz / ENVIADO ESPECIAL A CARACAS,

23 de fevereiro de 2014 | 21h43

Camisa social, calça jeans, mochila de marca e celular de última geração dão o aviso. O líder estudantil Enrique Altimari é filho da elite venezuelana. Aluno de Direito da universidade privada Monte Ávila, de Caracas, nasceu em Maracaibo e estuda na capital. Seu pai era militante do tradicional partido Copei, um dos principais da Quarta República, e foi assessor do ex-presidente Rafael Caldeira.

Nascido no oeste do país, é o único dos seis irmãos que ainda mora na Venezuela. Os outros foram para a Europa, Panamá e EUA em busca de oportunidades melhores.

Presidente do Diretório Central de Estudantes de sua escola, ele é um dos principais idealizadores dos protestos que se espalharam pela Venezuela há 20 dias. Altimari praticamente não tem lembranças da Venezuela antes do chavismo, sob o qual viveu por 15 de seus 22 anos, mas vê com olhos bastante críticos a Venezuela de hoje.

"O problema é que as palavras perderam o significado. Chamam de fascismo o que não é fascismo e de socialismo o que não é socialismo", diz."Chávez fez com que a Venezuela esquecesse o que havia de bom no país antes dele e criou uma narrativa como se tudo fosse ruim. Não era bem assim."

O líder estudantil afirma que a última onda de protestos começou em Táchira, quando uma aluna de uma das universidades do Estado foi roubada e sofreu uma tentativa de estupro. O movimento se espalhou ao ganhar mais reivindicações, como a crise econômica, a escassez de alimentos e a repressão policial.

Depois da quarta-feira, quando a Guarda Nacional Bolivariana e motoqueiros armados atacaram manifestantes em Altamira, o movimento arrefeceu. "Esse fim de semana dirá se os protestos morrerão ou não."

Altimari é bem conectado nos meios políticos venezuelanos. Uma colega de classe é filha de uma das assessoras da deputada María Corina Machado. Uma parente trabalha no gabinete de Henrique Capriles, o governador de Miranda. Ele admite que há uma coincidência de interesses entre os protestos do estudantes e a estratégia de parte da oposição de tomar as ruas contra o chavismo, mas garante que o movimento estudantil pretende manter uma distância saudável dos partidos políticos.

"Todos os partidos nos procuram para impor sua agenda. Todos. No entanto, queremos ter uma agenda própria", afirma. "Tomamos muito cuidado para não sermos manipulados."

O estudante tem dois celulares e diz ter razões para acreditar que é monitorado pelo Sistema Bolivariano de Inteligência. Questionado sobre a possibilidade de aceitar o convite de diálogo feito pelo presidente Nicolás Maduro, ele é taxativo: "Só se for em igualdade de condições. Ele fala 10 minutos, nós falamos 10 minutos. E ele tem de libertar todos os estudantes que continuam presos."

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