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Jovens da França e a jihad na Síria

Jornalistas sequestrados por grupo radical islâmico foram reféns de conterrâneos franceses, em uma guerra apoiada pelo Ocidente

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

24 Abril 2014 | 02h07

Quatro jornalistas franceses reféns de grupos islamistas radicais na Síria foram libertados e retornaram a Paris. Sua longa detenção no escuro absoluto, submetidos às vezes a espancamentos e à fome, foi atroz.

O paradoxo é que o grupo jihadista os sequestrou participa da luta dos insurgentes que há três anos tentam derrubar o ditador sírio Bashar Assad. A França, como a maior parte dos países ocidentais, apoia essa revolta contra Assad. Chegamos então a essa constatação assombrosa: os quatro jornalistas foram presos e maltratados por grupos que travam uma guerra contra Assad aprovada, e até apoiada, pela França e pelo Ocidente.

Isso se explica pelos desvios observados nesses dois anos do lado dos que lutam contra o ditador sírio: se no início a guerra era feita por "democratas", pouco a pouco combatentes islâmicos radicais, vindos do Paquistão, do Iêmen e do Afeganistão se infiltraram entre os insurgentes. Aliás, esse é um dos argumentos de Assad para iludir as potências ocidentais. Ele afirma que o Ocidente apoia seus piores inimigos, fanáticos assassinos islamistas. E tenta abater o homem que se opõe à jihad.

Os jornalistas foram feitos reféns por um dos mais ferozes grupos, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante. E para seu espanto seus guardiões falavam francês, o que confirma que jovens franceses aderiram à jihad na Síria. Quantos são? Segundo estimativas da polícia, 500. Alguns falam em mil.

Doutrinados, fanáticos, armados, bem treinados e prontos para dar sua vida em nome de Deus, eles poderiam constituir, no seu retorno à França (ou à Bélgica, à Alemanha e à Itália) "bombas-relógio" capazes trazer a jihad para o centro da Europa.

Sempre houve franceses fascinados pelo islamismo radical. Mas até agora eram jovens muçulmanos vindos dos bairros pobres, desempregados e desesperados. Agora encontramos católicos convertidos, de uma maneira fulgurante, ao islamismo. Muitos vêm de uma burguesia educada. Identificamos vários alunos de uma instituição francesa superior, a Escola de Ciências Políticas. Como ocorrem essas "conversões"? Por um amigo desempregado ou da universidade. Por recrutadores enviados pelas mesquitas radicais. Mas principalmente pela internet.

Como impedi-los de fazer uma viagem à Turquia, ponto de passagem tradicional no caminho para a Síria? A circulação é livre e não é possível ter em mira certas pessoas com base na sua aparência. A tentativa, portanto, é vigiar a internet. "Patrulhas virtuais" vão a inúmeros fóruns islamistas a fim de conter sua propaganda. Mas trata-se de uma ação delicada. Ela só pode ter sucesso se os 28 países europeus se unirem.

A última moda diz respeito às garotas. Por muito tempo deixadas de lado, elas se tornaram alvo. Recentemente, uma jovem inscrita numa faculdade aderiu ao islamismo radical. De um dia para outro, rompeu com os pais e afastou-se dos amigos, esperando seguir para a Turquia e chegar à Síria. Calcula-se que essas meninas constituem 40% do total dos jovens jihadistas franceses. De acordo com o sociólogo Dounia Bouzar, elas se deixam convencer pela questão humanitária. Os recrutadores as influenciam saturando-as de vídeos atrozes de crianças feridas ou mortas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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