Andrew Testa / The New York Times
Uma pesquisa do Pew Research Center mostra que há uma concordância mundial de que as mudanças climáticas são um risco real Andrew Testa / The New York Times

Jovens distantes da velha ameaça nuclear

Mudança climática é considerada hoje principal risco e o nuclear não está entre preocupações

Beatriz Bulla, correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2019 | 05h00

WASHINGTON - O medo de ameaças nucleares passa longe do topo da lista de maiores preocupações da geração atual nos EUA. A saída do país do Tratado de Proibição de Mísseis Intermediários (INF), um dos acordos de redução de armas nucleares mais bem-sucedidos da História, não mudou a perspectiva dos americanos. 

Uma pesquisa do Pew Research Center, feita em 26 países em 2018 mostra que há uma concordância mundial de que as mudanças climáticas são um risco real. Em 13 dessas nações, mudanças climáticas são a primeira das ameaças globais. Em oito delas, o terrorismo ligado ao Estado Islâmico é a principal. Os ciberataques aparecem como grande temor em quatro países e em um deles o medo maior é da influência russa.

O temor a uma ameaça nuclear vinda da Coreia do Norte não está em primeiro ou segundo lugar em nenhum dos países – nem mesmo na vizinha Coreia do Sul. Outros institutos de pesquisa, como o Gallup, confirmam que a ameaça nuclear não chega ao topo da lista das preocupações recentes quando se fala em questões mundiais.

Deverrick Holmes, de 28 anos, graduado em história, se preocupa com o fato de sua geração não temer uma guerra nuclear – o que o levou a publicar um manifesto sobre o assunto para o Centro para Controle e Não Proliferação de Armas. “Certamente estudar história abriu meus olhos sobre o que aconteceu no passado. Não há uma garantia de que uma guerra nuclear nunca acontecerá. Infelizmente, não acho que os mais jovens e as pessoas da minha geração se importam com isso, provavelmente porque não está nas manchetes o tempo todo. Há outras questões que as pessoas da minha idade se importam mais, como mudança climática”, afirma Holmes.

Com o tratado INF em vigor, a assinatura em 2010 do New Start e sem ter nunca visto o uso de uma arma nuclear, a geração de Holmes cresceu com a sensação de que o problema estava resolvido. Na visão do historiador, o maior problema é a falta de engajamento. Segundo ele, se houvesse maior consciência da sociedade sobre os riscos de um ataque nuclear, provavelmente os EUA seriam mais pressionados a não deixar o INF.

No site Bulletin of The Atomic Scientists, Chapin Boyer, morador da Califórnia, descreve as razões pelas quais acha que sua geração não se importa com as ameaças nucleares. “Pode ser impossível dar a minha geração o contexto para temer armas nucleares, mas não é impossível ensinar minha geração e vincular esse conhecimento ao que nos interessa. Dizemos que nos preocupamos com o meio ambiente, por exemplo, mas como uma pessoa pode se chamar ambientalista e não reconhecer os perigos que as armas nucleares representam para o mundo natural?”, questiona Boyer.

Holmes tem uma preocupação concreta: que a falta de engajamento provoque novos retrocessos na não proliferação de armas. “Me preocupo com o fato de a minha geração não se importar com isso, porque o Congresso só age quando acha que as pessoas acompanham um assunto”, diz ele.

Dois anos mais velho, o economista Cameron Harwick, que mora no Estado de Nova York, discorda. Segundo ele, o benefício de ter armas nucleares é maior do que o risco. “Sou bastante grato pelos benefícios de ter as armas e a sua ameaça, que são maiores do que o risco de que elas sejam usadas. Antigamente, a única coisa que faria dois países não entrarem em guerra seria a distância, que não importa mais. Hoje temos mísseis, drones, aviões. Se esperaria mais guerras, mas é uma era de extrema paz”, afirma Harwick.

Impressão contrária

John Mueller, pesquisador do Cato Institute e da Ohio State University, ainda vê muito alarmismo nas preocupações atuais. “As pessoas continuam preocupadas com armas nucleares e não acho que deveriam estar. É mais baixa (a preocupação) do que era nos anos 80, quando o medo de uma guerra nuclear era a maior preocupação da sociedade”, afirma ele. 

“Há 75 anos as pessoas falam sobre isso e dizem que é necessário controlar essas armas, e nada aconteceu. O problema é que as pessoas ficam falando e se aterrorizando sobre isso”, completa o pesquisador. Em artigo publicado na revista Foreign Policy, Mueller defende que “compreender o impacto real” das armas nucleares e seu contexto permitirá a formuladores de políticas “ver as questões nucleares” de outra maneira. “Isso significaria trabalhar com a Coreia do Norte para estabelecer uma condição normal na região e se preocupar em reduzir suas capacidades nucleares posteriormente”, afirma.

Para Strobe Talbott e Maggie Tennis, do instituto de pesquisa Brookings, à medida que o governo de Donald Trump aumenta investimentos em armamentos para fazer frente ao que considera ameaças vindas da Rússia ou da China, também contribui para “corroer” um sistema de restrições e limitações. “As políticas de Trump prejudicaram os acordos de controle de armas e de não proliferação que regulam essas ameaças”, afirmam.

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