Jovens dos EUA simulam resoluções para crise do euro

Se o Banco Central Europeu (BCE) fosse presidido por uma albanesa de 26 anos, pediria mais união aos países membros da zona do euro e menos interferência dos governos em suas políticas. Já os representantes do Fundo Monetário Internacional (FMI) na chamada Troica - grupo de ajuda externa aos países endividados da zona do euro, que inclui BCE, FMI e Comissão Europeia - mostrariam mais equilíbrio se viessem de países como Reino Unido e Finlândia, e pediriam aos governos da Alemanha, Grécia, Portugal, Espanha e Itália que todos fizessem concessões para chegar a um acordo.

ANDRÉIA LAGO, Agência Estado

21 de outubro de 2012 | 18h49

No fim das contas, após duas horas de discussões e acusações mútuas, emitiriam um comunicado conjunto prometendo manter o euro por meio de reformas estruturais e cortar gastos sem prejudicar o crescimento econômico.

O exercício levou 30 jovens líderes de diversos países à mesa de negociações durante as atividades da conferência anual da organização One Young World, em Pittsburgh, e revelou mais do que as dificuldades que permeiam as negociações entre autoridades da zona do euro em meio à crise que assola o continente europeu.

Ao assumirem papéis de representantes de governos como o da Alemanha, Grécia e Portugal, ou de autoridades como o presidente do Banco Central Europeu, jovens como Cheuk Kwan Chung, de Hong Kong, deixaram muito claro como a imagem que as economias europeias projetam afeta suas posições e o avanço das negociações.

Num dos momentos mais reveladores do encontro, conduzido por economistas e analistas da corretora americana PNC, Chung sugeriu aos representantes do governo grego que façam mais pela sua economia, que vendam suas ilhas e façam seu trabalho. "E, por favor, não durmam à tarde, trabalhem", pediu Chung, estudante de 19 anos apaixonado por política internacional que representou o governo de Angela Merkel.

Seu colega Mehmet Apaydin, um estudante turco de 23 anos que estuda Administração na Universidade Técnica do Oriente Médio, foi claro no recado alemão aos vizinhos endividados: "Achamos que já fizemos muito. Precisamos de países que acrescentem à União Europeia e não apenas usem a zona do euro", disse o falso Wolfgang Schäuble. A reação dos gregos foi instantânea e enérgica. "Vocês estão sugerindo que estão nos fornecendo seu dinheiro como caridade?", perguntou Besart Stavileci, um jovem do Kosovo de 22 anos e que trabalha no mercado financeiro, na função de um ofendido premiê grego.

"Estamos fazendo o melhor que podemos, e não podemos fazer mais", garantiu. Sem meias palavras, o jovem kosovar reagiu ao pedido alemão para que os gregos não durmam durante as tardes afirmando que a Grécia se tornou uma espécie de bode expiatório da crise. "Até mesmo os Estados Unidos têm um abismo fiscal à espera logo à frente, no começo do próximo ano, e ninguém fala nada sobre isso", alertou.

Os países em dificuldades, como Espanha, Itália e Portugal, repetiram o discurso de seus governantes de que estão fazendo tudo que está ao seu alcance para mudar o rumo de suas economias.

Ontem, no entanto, eles assumiram as vozes dos sul-africanos Zinzi Makie e Gareth Farr e da americana Jessica Wacek, respectivamente. Zinzi, uma consultora de risco da área de corporate banking do Absa Capital, uma subsidiária do Barclays na África, deu um recado claro aos negociadores da Troica: "Precisamos de dinheiro, mas não podemos abrir mão da nossa soberania para tomar medidas porque não podemos arcar com mais instabilidade social", explicou. Sem meias palavras, a representante do governo Rajoy pediu o apoio dos vizinhos italianos. "Vocês são os próximos na linha de desconfiança dos mercados, então nos ajudem a reverter isso", apelou. Farr, em nome do governo Monti, foi enfático: "Medidas de austeridade não conseguem estimular o crescimento, precisamos de outra receita", pediu.

Isolados na discussão, os dois representantes do governo de Angela Merkel, Chung e Apaydin, pediram o apoio da França para equilibrar a negociação, mas continuaram sendo a única voz a pregar contra a liberação de mais ajuda financeira aos vizinhos endividados. "Somos um governo que acaba de assumir e estamos preocupados com nosso próprio crescimento, que está muito fraco, e com o desemprego que só faz aumentar na França", rebateu o inglês Adil Jiwa, em nome do governo de François Hollande.

Restou ao FMI pedir cooperação a todos, e à albanesa Rezarta Veizaj, que presidia o BCE em nome de Mario Draghi, que a Alemanha "aja mais como Europa" para que um acordo fosse possível. Por sugestão de Portugal na voz da americana Jessica, todos concordaram que os pacotes de resgate incluam a condição de realização de reformas estruturais - o que geralmente tem resultado em desemprego e cortes nos países que já receberam ajuda externa.

Pressionados pelo tempo, após duas horas de intensa negociação o comunicado que resultou do exercício refletia a mesma disposição vaga que geralmente acompanhou as reuniões de cúpula da União Europeia ao longo de três anos de crise: todos concordam em manter o euro, fazer reformas estruturais, estimular o crescimento e fortalecer a zona do euro como uma estrutura política única e unida. (A jornalista viajou a convite do One Young World)

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