AP Photo/Fernando Vergara
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Jovens e mulheres devem liderar as Farc na política

Segundo analista que estuda o processo de paz na Colômbia, novos rostos devem ganhar espaço após guerrilha se tornar partido formal

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2016 | 17h00

Com a ratificação do acordo de paz feito com o governo de Juan Manuel Santos, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) agora trabalham na formulação de um programa político e na escolha de lideranças que representem os ideais do grupo em disputas eleitorais. 

Para analistas, é possível que líderes que se destacaram nas negociações de paz, como Iván Márquez, continuem com alguma posição de destaque, mas a aposta principal deve ser em quadros novos escolhidos entre as mulheres e os guerrilheiros mais jovens. 

“A natureza coletiva das Farc deu às mulheres um papel muito importante dentro da organização. Nesse ponto, o plano político que surge depois dessa conferência com certeza terá mulheres com papéis preponderantes. Não acredito que os cabeças das Farc, que são dois homens, serão os líderes políticos da organização”, afirma o cientista político e coordenador da Fundação Ideias para a Paz, Eduardo Álvarez Vanegas. 

Durante a 10.ª Conferência das Farc, realizada na semana passada, o integrante do Secretariado da guerrilha e da delegação que negociou o pacto de paz Félix Antonio Muñoz, conhecido como Pastor Alape, afirmou acreditar em um maior papel da mulher na política colombiana após o acordo de paz. 

“Nas Farc, temos brigado pelo protagonismo das mulheres. Nesse processo de diálogo, nossas mulheres ficaram mais corajosas e discutem com mais envolvimento que no século passado”, disse ele durante a reunião histórica, que pela primeira vez não discutiu os próximos passos da guerra. Atualmente, entre 30% e 40% das Farc são formadas por mulheres. 

A questão de gênero teve papel importante ao longo dos quatro anos de negociações de paz entre governo e guerrilha. Em setembro de 2014, foi formada uma subcomissão de Gênero com integrantes das Farc e do governo colombiano para dar esse enfoque aos acordos que estavam sendo negociados. “Esse processo de paz teve um ingrediente importante: a participação das mulheres foi essencial”, diz Vanegas.

O cientista político ressalta, no entanto, que o surgimento de novos líderes da guerrilha para os cargos de eleição popular não significa que os grandes nomes das Farc hoje não terão protagonismo. “Dos negociadores das Farc, alguns têm um sentido muito pragmático da política, por isso são os negociadores. É o caso de Iván Márquez, Pablo Catatumbo (Jorge Torres Victoria). Eles continuarão participando fortemente da política.”

Programa. Ao se lançar como partido político, as Farc devem colocar em seu programa os ideais que apresenta como guerrilha. “Muitas vezes as pessoas pensam que as Farc apenas fizeram a guerra, é preciso lembrar do componente político. As Farc por definição são uma organização político-militar, fazem política. Muitos parentes das Farc têm cargos públicos em municípios. A mesma guerra que eles fizeram serviu para colocar alguns temas na agenda política colombiana”, explica Vanegas, lembrando que é preciso analisar qual será o tipo de organização política e as estratégias que serão adotadas pelo grupo.

Para isso, as Farc decidiram realizar um congresso para oficializar a criação do partido político, divulgar o plano que será tratado e o nome sob o qual responderão. Ainda há dúvida se a sigla Farc continuará sendo usada ou se como partido, o grupo terá outro nome. 

Durante a semana da conferência uma faixa com o nome Movimento Bolivariano por uma Nova Colômbia apareceu em diversas fotografias e especula-se se esse será o nome adotado. 

Mas antes de se converter em partido político, as Farc precisam estar desmobilizadas, ou seja, ter entregue todo seu armamento. O prazo para isso será de até 180 dias depois da assinatura do acordo de paz amanhã, quando o presidente Santos e o líder da guerrilha, Rodrigo Londoño Echeverri, conhecido como Timochenko, assinarão o documento final. 

Para garantir que o processo de desmobilização ocorra sem deserções de guerrilheiros, o cientista político Vanegas explica que é preciso preservar a característica das Farc, de ser um “coletivo”, por isso a concentração do grupo em diversas zonas do país é essencial. 

“Pertencer às Farc não precisa ser por meio forçado, como nos fazem crer muitas vezes. Seu primo, tio ou avô pertenciam ao grupo, por exemplo, então você acaba pertencendo. O que se verá quando as Farc deixarem as armas serão famílias inteiras deixando as armas. Por isso, o modelo de reintegração precisa levar em conta essa realidade”, argumenta, lembrando que o método também impede que as antigas formações militares (frentes, como as Farc são divididas) sejam separadas e líderes militares sigam para diferentes partes do país.

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