REUTERS/Philippe Wojazer
REUTERS/Philippe Wojazer

‘Jovens e sindicatos não queriam depor De Gaulle’

Segundo o jornalista e um dos líderes do movimento, o Maio de 68 foi um movimento cultural sobre a forma de viver, não sobre a organização política

Entrevista com

Serge July

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2018 | 05h00

Há 50 anos, a democracia tremeu na França. Em meio à crise política provocada pela convulsão social de Maio de 1968, Charles De Gaulle viajou em segredo de Paris em direção a uma base militar francesa em Baden-Baden, na Alemanha, e deixou para trás ministérios e instituições esvaziadas e um país à mercê de um golpe de Estado.

Nessa semana crítica de 23 e 30 de maio de 1968, revolucionários de esquerda sonharam com a tomada do poder – mas a maioria dos revoltosos, inspirados pelo universitário Daniel Cohn-Bendit, não manobrou para derrubar o governo.

Cinco décadas depois daquela semana, um dos militantes mais ardorosos de Maio de 68, Serge July aceitou falar ao Estado com exclusividade. Membro do comitê do Movimento 22 de Março, liderado por Cohn-Bendit, July foi aclamado em Cuba por Fidel Castro quando de sua passagem pela ilha e ao longo dos anos que se seguiram manteve-se como uma personalidade maior da esquerda intelectual francesa.

Co-fundador do jornal Libération, ao lado de personalidades como o filósofo Jean-Paul Sartre, o jornalista moderou seu ativismo ao longo das décadas, mudando também a linha editorial do Libération, hoje um jornal de perfil social-democrata – ou “liberal-libertário”, como define.

Na entrevista a seguir, July explica que, em meio ao caos social de Maio de 68, a presidência de De Gaulle esteve por um fio. Mas um golpe de extrema esquerda não aconteceu porque ninguém queria o poder.

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A imagem de Maio de 1968 são as barricadas no Quartier Latin. Mas essa é só parte do movimento, não?

A imagem de 1968 são as barricadas, mas essa é sim uma imagem muito parcial. Houve barricadas simbólicas entre o 3 e o 10 de maio, o que permitiu aos estudantes ganhar a queda de braço. O governo tinha fechado as universidades, inclusive a Sorbonne, e cedeu, reabriu as instituições, e os estudantes presos antes foram liberados. Isso deu ao conjunto dos movimentos sociais muita esperança na sequência dos fatos. Por isso logo a seguir teve início o movimento social mais importante da história da França – mais importante até que o de 1936, a Frente Popular. Em Maio de 68 havia entre 8 e 10 milhões de pessoas nas ruas. A particularidade francesa é que os estudantes detonaram o movimento social. Por que isso aconteceu? 

Por quê?

Uma das razões foi porque os estudantes ganharam, as barricadas fizeram ceder o governo em um ponto específico. A segunda razão é porque era um período muito otimista. Vivíamos os 30 anos gloriosos, que não sabíamos que acabariam. Pessoas de direita e de esquerda imaginavam que era possível mudar o mundo, transformar as coisas – inclusive De Gaulle. Não era um período negativo, mas positivo. Os anos 60 eram aqueles da saída da guerra, depois de milhões de mortos. Caímos na sociedade do consumo, com muita abundância, quando a mobilidade social funcionava. Eram anos pop. Milhões de jovens entraram no sistema de escolas e universidades. Depois, viriam a ser um dos motores da revolta. Nenhum governo estava preparado para isso: nem a França, nem os EUA, nem o Japão, nem a Polônia. Nenhum. Além disso, havia as utopias. Havia as capitalísticas e as de esquerda – libertárias, marxistas, anarquistas… Hoje estamos em um novo mundo. A ideia de descer à rua para fazer o mundo mudar…

Por que um movimento antiautoritário e libertário explodiu na França, que era um país democrático e livre?

Creio que De Gaulle incarnava uma concepção muito vertical do poder, em um país muito igualitarista. A França é complicada, porque é ao mesmo tempo Bonaparte e o igualitarismo. Há esses dois polos agindo um contra o outro, às vezes juntos. O lado autoritário de De Gaulle, seu lado “sou eu quem decide”, durou 10 anos. Não quer dizer que as pessoas não amavam De Gaulle, mas que estavam cansadas. Por isso coisas muito secundárias pesaram em Maio de 68. A história da demissão de (Henri) Langlois da Cinemateca, em fevereiro, por decisão de André Malraux, então ministro da Cultura, foi uma delas. Langlois era o inventor da Cinemateca e foi alvo de uma decisão autoritária, que ninguém até hoje sabe por que aconteceu. Além disso, De Gaulle usava muito as ordonnances (espécie de medidas provisórias francesas). De Gaulle não havia tido uma grande vitória em 1965. Em 1967, nas eleições legislativas, ele teve uma maioria de um deputado. Ele renome George Pompidou e passou a adotar ordonnances, sem debate, sem nada. Todas as semanas, a partir de julho de 1967, havia manifestações sindicais frequentes. Não estou dizendo que os sindicatos detonam Maio de 68, nem a greve geral, mas havia um fundo de desconforto.

O senhor afirma que existe um Maio de 68 estudantil, diferente do Maio de 68 operário. E que todos os dois se encontram em uma greve geral. Pode explicar?

Houve três grandes episódios em Maio de 68. Um momento estudantil, que foi de março até o 13 de maio, dia da greve geral. Esse período foi concluído com uma vitória. O segundo foi a ampliação do movimento à juventude, não apenas universitária, mas também operária e assalariada. Esse momento começou em 13 de maio, com a ocupação das empresas, com 8 a 10 milhões de grevistas nas ruas. Foi um movimento popular, não uma minoria, que tomou as empresas para refletir sobre como organizar o trabalho de outra forma. Havia uma criatividade incrível nesses movimentos, os chamados comitês de ação. Nesse momento não havia mais confrontos de rua entre estudantes e polícia, mas havia uma efervescência social incrível. Havia reuniões permanentes por todo lado, não apenas no Quartier Latin.

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E o terceiro episódio?

O terceiro episódio tem três datas. Em 24 de maio, após a expulsão de Daniel Cohn-Bendit, De Gaulle tentou a ideia de realizar um referendo, sugerindo a ideia de “Ou eu, ou o caos”. Ele de imediato se deu conta de que havia tomado uma decisão errada, que não funcionou. A iniciativa criou uma tensão geral. Muita gente começou a se perguntar o que iria acontecer. O aparelho de Estado se fragilizou, os ministérios e órgãos da administração pararam. Havia um medo no ar. Philippe De Gaulle, filho general, dormia junto à porta, armado, com medo do que poderia acontecer se não houvesse mais policiais para defender o Palácio do Eliseu caso fosse invadido.

Mas a França esteve assim tão próxima de uma revolução?

Não, de maneira nenhuma, por duas razões maiores. A primeira era o fato de que os estudantes não cogitavam a tomada do poder, nem mesmo os de extrema esquerda. É preciso muita organização para fazer um golpe de Estado. O Brasil conhece bem essa história. É preciso do apoio de segmentos das Forças Armadas, de partidos políticos… Não havia isso. O movimento estudantil não tinha nenhuma ideia política além de fazer parar o autoritarismo. O neto de De Gaulle, Jean De Gaulle, filho de seu filho, um dia almoçou com o presidente, que perguntou: “Mas o que é que vocês, jovens, querem?”. E o neto respondeu: “Nós queremos viver mais”. Esse diálogo resume muito bem a situação. É como se o neto de De Gaulle lhe tivesse falado em mandarin, porque a incompreensão do general era total. Só o que era claro é que ninguém, entre os jovens, tinha a intenção de tomar o poder. Eu me lembro dos ministérios desertos. Eu estava entre aqueles que dizia que podíamos invadi-los. Ninguém me ouvia. Ninguém! Eles me respondiam: “Não, vamos para o Quartier Latin”. Eu era um revolucionário e ninguém me ouvia. Assim compreendi que o movimento não queria o poder.

E qual foi a segunda razão?

A segunda razão é que o Partido Comunista e os sindicatos, em especial a CGT, eram muito contrários à União Soviética. Aliás, a URSS assegurou De Gaulle que não estava insuflando nenhum movimento de tomada do poder. Então havia a soma de todos esses fatores: o movimento estudantil não era favorável à tomada do poder, não constituía uma força política; e o PCF e os sindicatos eram muito hostis a qualquer movimento de tomada do poder. Houve uma janela de oportunidade, um vazio do poder. De Gaulle estava desorientado pelo que se passava, não sabia como agir. Mas os estudantes e o PCF e os sindicatos acabaram deixando as mãos de De Gaulle livres para agir.

Foi isso, enfim, que lhe permitiu retomar as rédeas do poder?

Sim. Houve negociações, que chamamos de Grenelle, em que o governo cedeu muito. O salário mínimo foi reajustado em 30%. O que mostrou a profundidade do que se passava é que o acordo foi rejeitado pelos sindicatos e pelos manifestantes. As pessoas não queriam um governo popular, mas também não queriam apenas um aumento do salário, queriam mudar a organização do trabalho, etc. Nesse momento ninguém tinha uma solução política, porque a questão não era política. Mas em 30 de maio De Gaulle anunciou a dissolução da Assembleia Nacional e convocou eleições legislativas antecipadas. Houve a manifestação dos gaulistas, reforçados pela extrema direita – que eram seus adversários antes e depois. E essa manifestação foi um sucesso. Logo De Gaulle soube recuperar o poder – e por via democrática, aliás.

O senhor diz que a questão não era política. Era qual?

Era cultural. Ninguém queria o poder, queria que De Gaulle parasse. O movimento de Maio de 68 tinha natureza cultural. Ninguém queria mudar o governo. Os líderes de extrema esquerda diziam “Seria legal se…”. Mas eram oito, 10 pessoas. Era um movimento de forte conotação cultural, sobre a forma de viver, os valores, o sentido da vida, não sobre a organização política. Por isso a tomada do poder nunca foi de fato evocada.

Você diz que Maio de 68 foi pacifista, libertário, sem planos. Por quê?

A origem dos movimentos estudantis dos anos 60 eram os direitos civis nos Estados Unidos. Era o pacifismo, Martin Luther King, etc. Por isso as manifestações estudantis na França, como no exterior, não eram para tomar o poder. As mortes que aconteceram em Maio de 68 – entre cinco e sete, o que já é demais – foram acidentais. Ninguém nunca sacou uma arma para atirar em um policial. Me lembro que no dia 24 de maio uma loja de armas foi vandalizada, e todo mundo se opôs ao saque. A loja foi protegida de toda tentação. Por isso afirmo que foi um movimento pacifista. As barricadas do Quartier Latin eram para proteger o interesse dos estudantes, em nenhum momento ninguém atirou com uma arma de fogo nos policiais. E estávamos no país da Resistência Francesa, onde havia armas escondidas da época da guerra. O PCF era muito militarizado, mas não houve nem dissidentes tentando o que quer que fosse.

Algumas publicações de esquerda na França saíram com manchetes com o espírito “à espera da revolução”. Qual sua análise?

Os vencidos de 1968 foram De Gaulle e sobretudo o Partido Comunista Francês (PCF). Eram os dois lados autoritários, as duas visões autoritárias do mundo. Essas visões foram condenadas por Maio de 1968.

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