Adalberto Roque/AFP Photo
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Jovens esperam que morte de Fidel acelere reformas 

Gerações mais velhas, no entanto, reagem de forma mais emotiva à ausência do líder da Revolução Cubana, morto no sábado

Cláudia Trevisan - Enviada Especial / Havana, O Estado de S. Paulo

28 de novembro de 2016 | 05h00

Com 18 anos de idade, Joel Peña nasceu quando Fidel Castro era um septuagenário e a revolução que comandou estava prestes a completar quatro décadas. Quando soube que o líder havia morrido, sua reação foi de indiferença. Claudio Antenor Soares, de 60 anos, teve emoção oposta e sentiu a morte de Fidel como a de um integrante de sua família. “Perdemos parte de nossa vida”, afirmou.

O contraste mostra a distância entre gerações que vivenciaram a Revolução de maneira distinta. Para os mais velhos, Fidel foi uma presença constante desde a infância e moldou suas experiências pessoas e coletivas. Afastado da vida pública desde 2006, o líder se transformou em uma imagem esmaecida no cotidiano dos jovens que escutam reaggaeton, fazem penteados estilizados e sonham com um futuro no qual possam ter ambições materiais.

Para eles, a morte de Fidel pode abrir caminho para que o ritmo das reformas econômicas iniciadas por seu irmão, Raúl, seja acelerado. “Ou mudamos, ou vai piorar ainda mais”, afirmou Oscar Matos Noa, de 22 anos. “Raúl era presidente, mas havia uma lenda viva. Agora, ele poderá tomar decisões mais livremente.” 

Ontem, Noa estava com o companheiro, Alexey Aguila, de 37 anos, no Parque Central, o local da Velha Havana que é um dos locais de encontro dos moradores da capital. Nenhum dos dois tem emprego formal e ambos sobrevivem fazendo bicos. Como muitos cubanos, ele se queixam da existência de duas moedas: o peso cubano, que paga os salários da maioria, e o conversível, no qual os preços de grande parte dos bens de consumo são determinados. “Aqui, ou compramos comida ou compramos sapato. O que ganhamos não dá para os dois”, afirmou Aguila.

Dinheiro curto. Peña, o jovem de 18 anos, trabalha como cozinheiro em um dos restaurantes que se multiplicaram com a gradual ampliação de espaço para negócios privados. Por mês, ganha cerca de US$ 100, muito acima do salário médio de US$ 20 pago pelo Estado. Ainda assim, se queixa da existência de duas moedas e da falta de oportunidades no país. “O mais importante é a comida e tudo está muito caro.”

Em sua opinião, a morte de Fidel criou incerteza, mas ele espera que haja mudanças, principalmente na economia. Enquanto isso não ocorre, ele sonha em imigrar para os EUA, onde vivem alguns de seus tios e primos. “Estava em minha casa e vi a notícia pela televisão. Claro que lamento a morte de alguém, mas não senti nada”, disse Peña.

Ambiente. A morte de Fidel não provocou comoção nas ruas. A Havana Velha estava cheia de famílias e amigos, em um típico domingo. A grande diferença era a ausência de música, uma das marcas da vida pública da capital. Os locais de espetáculo e shows foram fechados por determinação oficial, mas turistas continuavam a percorrer os locais históricos da cidade, onde restaurantes e bares sem música e sem bebida alcoólica estavam abertos.

“Sabíamos que ele estava doente e estávamos preparados psicologicamente para isso”, disse Orlando Montoya, um dos integrantes da geração mais velha. “Claro que fiquei triste. Nasci na revolução e o que sei eu aprendi com Fidel.”

O líder da Revolução de 1959 se afastou do poder em 2006, quando seus problemas de saúde começaram. Seu irmão mais novo, Raúl, assumiu o comando do país de maneira provisória e, dois anos mais tarde, ocupou a presidência de maneira permanente. Desde então, os cubanos viram a figura de Fidel se tornar cada vez mais frágil.

No último congresso do Partido Comunista, realizado em abril, Fidel disse que logo faria 90 anos e aquela poderia ser sua última participação. 

Continuidade. Dono de um café no centro de Havana, Andres Ulisses não acredita que haverá mudanças drásticas com a morte do líder. “Raúl é a continuação do comandante. Fidel continuará presente entre nós, como (José) Martí e Lenin”, afirmou.

Mas, para muitos cubanos, a ausência de Fidel abre dúvidas sobre o futuro do país e a inevitável luta de poder entre as facções do Partido Comunista, especialmente entre os que defendem reformas e os que resistem a elas. “Não sabemos o que vai acontecer”, disse a dona de restaurante Heidi, que não quis revelar o sobrenome.

A dúvida sobre o futuro é agravada com a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos EUA. Durante a campanha, o então candidato levantou dúvidas sobre a manutenção da política de reaproximação com Cuba iniciada por Barack Obama.

Talia Rodriguez, de 18 anos, sentiu o conflito de gerações na reação à morte de Fidel dentro de sua casa. Enquanto sua mãe chorou, ela não se emocionou. “Meus pais viveram essa época, eu não”, afirmou. A estudante também teme o que ocorrerá sob o novo governo americano. 

Como muitos jovens cubanos, Talia sonha com mudanças que levem ao aumento de oportunidades e ampliação de seus horizontes. “Em outros países, a pessoas podem viajar, trabalhar e ganhar um bom salário. Eu gostaria de conhecer o mundo, mas não posso.”

Na capital, a grande mobilização popular de despedida a Fidel acontecerá entre hoje e amanhã, na Praça da Revolução. O corpo do comandante foi cremado no fim de semana e as cinzas serão levadas para Santiago de Cuba, a cidade no Sul da ilha onde ele proclamou a vitória da Revolução no dia 1.º de janeiro de 1959. Agora, ele fará o trajeto inverso ao que o levou a Havana.

 

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