AFP PHOTO / CLAUDIO REYES
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‘Jovens não se enxergam nos políticos chilenos’

Doutor em Ciência Política e professor da FGV, Oliver Stuenkel atribui desilusão e desconfiança à baixa participação do eleitorado

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

18 Novembro 2017 | 05h00

Para Oliver Stuenkel, doutor em Ciência Política pela Universidade de Duisburg-Essen, Alemanha, a baixa participação dos jovens nas eleições chilenas é resultado de um desgaste dos políticos. Segundo o professor, o governo de Bachelet não foi mal, mas pesou entre os eleitores o fato de ela não ter conseguido cumprir a promessa de uma nova Constituição. A seguir, principais trechos da entrevista ao Estado.

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Como o senhor vê o processo eleitoral no Chile, que terá votação amanhã, e qual o impacto de o voto não ser obrigatório?

É uma eleição diferente na América do Sul, com voto facultativo, um dinâmica eleitoral que não existe, por exemplo, no Brasil. E isso terá, sim, impacto direto nos resultados, favorecendo o candidato Sebastián Piñera, que está na frente. Quanto menos gente for votar, melhor para Piñera, que já tem um bloco de apoio consolidado.

Há uma baixa participação do eleitorado (48%), principalmente por parte da juventude. E por que Michelle Bachelet e a esquerda, que estão no poder, não influenciam tanto nesta eleição?

Os jovens, os mais idealistas, de esquerda, têm se aproximado da candidatura de Beatriz Sánchez, da Frente Ampla, que está em terceiro lugar (atrás de Alejandro Guillier). Mas ela não tem chances de se eleger. Acho que a esquerda do Chile vive uma fragmentação e há uma mudança importante nos últimos anos. Mas discordo que isso seja uma questão regional. Para mim, o que acontece com o eleitorado do Chile é parecido com o que aconteceu na Alemanha. Há muito desgaste dos políticos. O eleitor jovem não se reconhece nos políticos. Isso acaba aparecendo na eleição. O que me surpreende é que o Chile de Bachelet teve avanços no campo social – como leis que permitem o aborto e união dos gays –, mas a expectativa de participação do eleitorado é de menos de 50%.

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Isso explica a dianteira de Piñera?

Piñera não é um candidato que empolgue. Mas Bachelet fez promessas que não conseguiu cumprir. Há uma desconfiança do eleitorado.

E também a prometida reforma no sistema de aposentadorias.

Sim, que ela articulou, mas não conseguiu entregar.

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Analistas chilenos argumentam que o eleitor seria muito exigente e até desconfiado. Se se promete a eles algo, tem de atender 100%; 70%, por exemplo, é igual a zero.

Concordo. Os chilenos reclamam muito, mas Bachelet fez boas coisas. Penso que o governo dela não foi tão mal assim, principalmente no âmbito social, mas ela não conseguiu cumprir a promessa de uma nova Constituição. Os chilenos lembram das promessas dos políticos, o que não ocorre em outros países, como no Brasil.

A economia terá peso importante no resultado?

Sem dúvida. Sobretudo para as pessoas que não sabem do impacto grande do preço do cobre para a economia chilena. Discordo que as dificuldades da economia chilena tenham a ver com as políticas sociais, que avançaram no governo atual. Mas há um crescimento de 1,5% e, no período de Piñera, no outro mandato dele, o Chile crescia acima dos 4% – em parte em razão do preço maior de commodities. Mas não acho que um governo de Piñera vá conseguir mais crescimento. Se olharmos as propostas dos dois, na economia, elas não são tão diferentes.

Uma das questões que tem impacto na sociedade chilena é a da imigração. Numa eventual troca de governo, pode haver fechamento?

Não acho. O Chile começou a ter um papel mais visível na crise da Venezuela, abertamente criticando o governo de Nicolás Maduro, e recebendo líderes da oposição. Não acho que vá mudar muito. Um eventual fechamento tem um custo. Mas essa é uma questão relevante e pode ser um desafio para os chilenos. Na verdade, esta eleição é até uma das mais tranquilas. Nós vamos ter, até 2019, com essa do Chile, 14 eleições. Algumas com dezenas de candidatos à presidência. Além do Chile, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Honduras, Paraguai, México, Venezuela, Argentina, Bolívia, El Salvador, Guatemala Panamá e Uruguai. Em vários desses países, há sinais de que os eleitores são vulneráveis a ideias antidemocráticas. Chile e Uruguai têm protestos, mas têm instituições que funcionam bem. 

O que mudaria em caso de um governo Piñera?

Não vejo tantas mudanças. O Chile é um país difícil de governar sem ampla maioria no Congresso. Fala-se também de uma aproximação com Donald Trump, dos EUA, o que é natural. Mas não creio que provocará grandes mudanças internacionais. O Chile é um país aberto e esse processo vai continuar.

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