Jovens palestinos partem em massa da Faixa de Gaza

Jovens palestinos partem em massa da Faixa de Gaza

Em meio ao cerco de Israel e Egito, com poucos empregos e sem esperança, há poucos motivos para ficarem

The Economist, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2019 | 05h00

Yarub Ikhdeh e seus amigos passaram metade de suas vidas à espera de um ônibus. Os seis jovens jamais saíram de Gaza, bloqueada por Israel e pelo Egito desde 2007. Eles cresceram em um território onde metade da população está desempregada e ao menos 70% dependem de ajuda para sobreviver. “Somos todos recém-formados em administração”, diz Ikhdeh. “E todos estamos desempregados.”

Uma dessas manhãs, recentemente, os amigos sentaram-se em um ensolarado estacionamento em Rafah, na fronteira com o Egito. Cada um deles tinha empacotado sua vida em uma única mala. Eles logo embarcariam em um ônibus para o Cairo, depois em um voo para Dubai nos Emirados Árabes Unidos. Ninguém tinha um emprego a sua espera nos Emirados. Seus vistos de turista seriam válidos por um mês. Mas a mera perspectiva de trabalho era suficiente para fazê-los sair de casa.

Os moradores de Gaza que querem deixar o território têm duas saídas principais. Apenas alguns podem usar a travessia em Erez, na fronteira com Israel. O restante está limitado a Rafah. O mau relacionamento entre o Egito e o Hamas, o grupo militante islâmico que controla Gaza, significa que a travessia ficou praticamente fechada por anos. O Egito a abriu por apenas 36 dias em 2017. Mas desde a última primavera, quando milhares de moradores de Gaza iniciaram um protesto na fronteira com Israel para exigir a remoção dos bloqueios, o Egito afrouxou as restrições. No ano passado, a passagem de Rafah ficou aberta por 198 dias.

A mudança desencadeou um êxodo de Gaza, que tem uma população de 2 milhões de pessoas. No ano passado, 60,9 mil pessoas passaram para o Egito, três vezes e meia mais do que em 2017. Cerca de 24 mil pessoas parecem não ter retornado. Houve outras 33 mil travessias no primeiro semestre deste ano. Alguns dos que saem, como Ikhdeh, esperam encontrar trabalho no Golfo. Outros voam para a Turquia e tentam a perigosa jornada pelo Mediterrâneo, até a Europa.

A emigração há muito tempo carrega um estigma entre alguns palestinos, um povo que lutou por gerações para permanecer em suas terras. O Hamas não divulga estatísticas sobre a emigração, a fim de que não deem destaque ao quão ruim a vida em Gaza se tornou durante seu governo. Mas aqueles que saem parecem ser principalmente universitários recém-formados.

O desemprego entre os jovens é calculado em cerca de 70%. No início deste ano, o Ministério da Educação anunciou 300 novos cargos no ensino. Recebeu 43 mil pedidos. Aqueles que encontram trabalho ficam frequentemente presos em trabalhos sem futuro. “Estou na mesma empresa há oito anos e recebo apenas US$ 250 por mês”, diz Alaa Abu Aqleh, formada em administração que também está à espera de embarcar em um ônibus. Isso é metade do que um trabalho de baixo salário em Ramallah pagaria, sem contar um trabalho no Golfo.

Restrições

Não é de surpreender que os médicos em Gaza digam que dezenas de seus colegas foram embora nos últimos meses. Além do baixo salário, a equipe médica precisa enfrentar os apagões diários e a rotina de escassez de tudo. Preocupado com a falta de médicos, o Hamas parou de emitir permissão de viagem a eles. Uma pesquisa em dezembro descobriu que 48% dos moradores de Gaza querem emigrar, em comparação a 22% na Cisjordânia. “O pessimismo está se disseminando por todos os cantos desse lugar”, diz Sameer Abu Mudallala, professor de economia da Universidade Al-Azhar, em Gaza.

O Egito ainda limita o número de viajantes diários em cerca de 300. A lista de espera é de mais de 10 mil pessoas. Os homens jovens, principalmente, enfrentam dificuldades para obter permissão por causa de preocupações com segurança no lado egípcio. Para avançar na fila, os habitantes de Gaza pagam o tanseeq, ou “coordenação”, um eufemismo educado para suborno. 

Corretores em Gaza coletam e distribuem o dinheiro para os oficiais no Egito (acredita-se que o Hamas também cobre uma parte, apesar de negar isso). Os preços começam em US$ 1.000, quase o triplo do salário médio mensal. Famílias vendem terras ou ouro para conseguir a travessia de seus filhos. “É irônico. A questão principal, durante muito tempo, foi que os palestinos voltassem para casa. Foi um sonho”, diz Abu Mudallala. “Agora estamos pagando para sair.” / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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