Jovens prometem abandonar armas depois do conflito

Combatentes aceitarão abrir mão do poder e da liberdade que o fuzil representa?

Lourival Sant?Anna, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2011 | 00h00

Conforme a guerra civil aproxima-se do fim, tornam-se cada vez menos necessários os milhares de fuzis e pentes de balas nas mãos dos jovens - e também adultos e velhos - na Líbia. O governo interino anunciou um programa de incorporação de 3 mil combatentes na polícia e de capacitação profissional para os restantes se reintegrarem à sociedade. A questão é: eles aceitarão abrir mão do poder e da liberdade que o fuzil representa?

"Vamos entregar as armas sem problemas", disse ao Estado Ali Alarbed, estudante de 19 anos. "Isso já está muito mais organizado", assegurou Abdel Salam al-Bkoush, de 24 anos, que estuda economia e negócios desde 2008 em Nottingham (Inglaterra), e veio para lutar. "À noite entregamos os fuzis. Eles são registrados numa lista. Ficamos com eles só quando é necessário."

Apesar das boas intenções dos jovens de Misrata, a proliferação de armas e a adrenalina injetada neles ao longo de seis meses de guerra civil preocupam o psiquiatra Adel Abu Azza. "Privar as pessoas de liberdade por tanto tempo e dar tanto de uma vez pode criar problemas, pois elas podem não saber como lidar com a liberdade, como se tivessem uma overdose", analisa Abu Azza. "Se você passa muita fome, e de repente colocam muita comida na sua frente, você pode não saber a hora de parar. Pode se intoxicar perigosamente."

"Na verdade, isso deveria ter sido considerado antes, mas as pessoas ficaram absortas pela ideia de livrar-se de Kadafi e não pensaram em como administrar as coisas depois do colapso do regime." Abu Azza propõe métodos para canalizar a energia dos rapazes privados de suas armas, por exemplo dando-lhes oportunidade de praticar em clubes de tiro. De acordo com o ministro interino de Capacitação, Faraje Sayeh, o programa de reintegração beneficiará tanto os rebeldes quanto os soldados de Kadafi, com treinamento profissional e bolsas de estudo. "Eles estão vindo de um ambiente quente", disse o ministro à agência Reuters. "Vamos acalmá-los e buscar formas de reintegrá-los à sociedade civil."

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