Marcos Corrêa/PR
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Ao lado de Bolsonaro, Guaidó afirma que voltará para a Venezuela até segunda-feira

No Palácio do Planalto, líder opositor discutiu com o presidente brasileiro os próximos passos no esforço de construir uma transição do chavismo; 'Deus é brasileiro e venezuelano', respondeu Bolsonaro a ele

Mariana Haubert, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2019 | 03h37
Atualizado 28 de fevereiro de 2019 | 21h16

BRASÍLIA - O líder da oposição na Venezuela, Juan Guaidó, afirmou nesta quinta-feira, 28, que voltará ao seu país apesar das ameaças de que poderá ser preso no retorno. Ele afirmou que isso deverá ocorrer no fim de semana ou na segunda-feira. Nessa sexta, ele irá ao Paraguai e terá um encontro com o presidente Mario Abdo Benítez. Na quinta-feira, a Assembleia Nacional em Caracas aprovou uma licença para Guaidó permanecer no exterior que expira na segunda-feira.

Autoproclamado presidente interino, Guaidó deixou a Venezuela pela fronteira com a Colômbia na última semana e ainda não se sabe como ele fará o retorno. Durante uma entrevista coletiva após ter se reunido com o presidente Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto, Guaidó afirmou que continua recebendo ameaças. 

Questionado sobre se não tem medo de voltar ao seu país e ser preso ou até mesmo sequestrado, como já aconteceu com outros líderes de oposição, Guaidó negou. "Apesar dos presos políticos, das perseguições, fazemos uma resistência pacífica", disse. 

Segundo Guaidó, sua geração cresceu na ditadura chavista, mas hoje há esperança de resistir e mudar. Ele chegou a citar uma situação hipotética em caso de Maduro não ter mais as armas de fogo, em uma alusão ao apoio que recebe do alto comando das Forças Armadas. "O regime de Maduro está tão fraco que tem apenas as armas. Imagine o regime de Maduro por um segundo sem armas, teríamos condições de fazer eleições livres. Maduro não tem apoio popular e nem reconhecimento internacional", disse. "O povo sabe disso."

De acordo com Gauidó, há hoje 300 mil venezuelanos em risco de vida. Esses venezuelanos, segundo ele, não puderam nem contar com a entrega da ajuda humanitária internacional ao país, que foi bloqueada pelo regime de Maduro que fechou as fronteiras com a Colômbia e com o Brasil, por onde passariam os caminhões com a ajuda.

Guaidó defendeu o endurecimento das sanções econômicas como forma de reduzir a entrada de dinheiro no país que, segundo ele, está tomado pela corrupção. "As sanções não são só uma questão diplomática, são uma necessidade", disse. De acordo com ele, seu grupo político já está criando um fundo para recuperar ativos que foram alvo de corrupção. 

'Deus é brasileiro e venezuelano'

Bolsonaro, por sua vez, prometeu ajudar o líder opositor venezuelano a reestabelecer a democracia na Venezuela. Bolsonaro disse que as ações do Brasil na crise se pautarão pela legalidade e as tradições diplomáticas brasileiras e pelo que foi definido pelo Grupo de Lima - bloco de países da região que monitora a crise. Bolsonaro é um forte crítico de Maduro. Os países que desconhecem o chavista como presidente, a exemplo do Brasil, alegam que sua eleição, em 2018, foi fraudulenta.

“Apoiamos todas as resoluções do Grupo de Lima para o objetivo que interessa a todos nós: liberdade e democracia na Venezuela”, disse o presidente. “Não pouparemos esforços dentro da legalidade e de nossas tradições para reestabelecer a democracia na Venezuela: eleições limpas e confiáveis. Seu país pode contar conosco para a recuperação econômica.”

O presidente também  vinculou a crise no país ao apoio de governos brasileiros que o antecederam e apoiaram o chavismo, em uma aparente crítica indireta ao PT. “Dois ex-presidentes do brasil tiveram culpa no que esta acontecendo na Venezuela”, disse. “Graças a Deus, o povo aqui acordou e se mirou no que acontecia no seu país e resolveram dar um ponto final no populismo e na demagogia.”

O presidente concluiu seu pronunciamento dizendo que tanto ele quanto Guaídó buscam “uma igualdade na prosperidade” para seus países.  “Já te chamo de irmão de agora em diante se assim me permite”, afirmou. “Estamos juntos a partir de agora e conte conosco.”  "Deus é brasileiro e venezuelano", concluiu Bolsonaro. 

Horas antes de receber Juan Guaidó, Bolsonaro disse estar disposto a se encontrar com Nicolás Maduro. As declarações foram dadas em café da manhã com um grupo de 11 jornalistas, em que o Estado não esteve presente. 

“Se o Trump [presidente dos EUA] pode conversar com o Kim [Jong-un, ditador da Coreia do Norte], posso conversar com Maduro também”,  disse Bolsonaro. “Eu acho que o Maduro está dando sinal de que quer conversar. O Maduro não quer acabar como o Saddam Hussein”, afirmou Bolsonaro, em referência ao líder iraquiano que foi deposto por forças americanas na guerra do Iraque em 2003 e acabou executado em 2006. 

A sinalização de Bolsonaro de que pode encontrar Maduro destoa da posição do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e da postura dos Estados Unidos em relação ao chavismo. Na quarta, o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, disse que a “única coisa a discutir com Maduro é a data da sua saída”.

Ele criticou o ditador venezuelano Nicolas Maduro pela perseguição que tem sido feita nos últimos anos a seus opositores e o culpou pela situação de miserabilidade de grande parte da população. Para ele, o país tem capacidade de se recuperar rapidamente após a queda do regime. 

"O regime de Maduro diz à imprensa internacional de que a situação é uma questão de guerra ou paz. Não é, é uma questão de democracia ou ditadura", disse. Ele também afirmou que as últimas eleições realizadas na Venezuela, em que Maduro saiu vencedor, não foram livres e democráticas. 

De acordo com Guaidó, a oposição tem buscado formar uma coalizão diplomática mundial para viabilizar a pressão interna a ponto de que eleições que possam ser consideradas livres sejam marcadas. Se isso acontecer, o venezuelano afirmou que não se poderá governar com ressentimentos, em uma alusão aos apoiadores do atual regime. A fala é uma tentativa de mostrar que seu grupo político não irá retaliar quem está hoje no poder, caso haja uma mudança no comando do país. 

O líder de oposição lamentou que a situação interna venezuelana tenha chegado ao ponto de levar à miséria grande parte da população. "Somos um país tão rico, como pode ter chegado à miséria", disse.

China e Rússia

Segundo Guaidó, a Venezuela tem sido usada pela guerrilha colombinana Exército de Libertação Nacional (ELN) para a construção de pistas de aterrissagem para o narcotráfico. "Nossa Amazônia é ocupada pelo setor narcomineiro. A participação do Brasil será importante. Há muitas informações que podemos compartilhar na luta anticorrupção." 

Guaidó assegurou que toda a ajuda, mesmo de China e Rússia, dois maiores aliados internacionais de Maduro, será bem-vinda. Os dois países têm bilhões de dólares em negócios na Venezuela. "Todos os acordos serão respeitados e hoje Maduro não respeita ninguém. Como recuperar investimentos com a hiperinflação de 1, 5 milhão e o PIB retraindo 50%? Uma mudança de modelo vai gerar confiança. Há uma agenda e se eles estiverem nela, serão bem vindos."

Antes da visita ao Planalto, Guaidó almoçou na residência oficial do embaixador do Canadá e se reuniu com embaixadores de países que o reconhecem como presidente interino da Venezuela na representação da União Europeia no Brasil. Antes de chegar para o encontro com Bolsonaro, Guaidó fez uma parada no Itamaraty, que não estava prevista. 

Ele foi recebido com pompa no Palácio do Planalto, com tapete vermelho e recepção da guarda presidencial feita pelos Dragões da Independência. 

O líder venezuelano também visita nesta tarde os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP). 

Em frente ao Planalto, aguardavam cinco manifestantes com cartazes em que se lia "Brasil, respeite a soberania da Venezuela". Eles quase não foram percebidos por Guaidó.

Guaidó deixou Bogotá ontem em um avião da Força Aérea Colombiana, que pousou na madrugada desta quinta-feira no Aeroporto Internacional de Brasília à 1h40. 

 Guaidó participou na segunda-feira em Bogotá de uma reunião do Grupo de Lima. Nela, os membros do bloco - uma dezena de países latino-americanos e o Canadá - se comprometeram a estreitar o cerco econômico e diplomático ao presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, mas sem recorrer à força, possibilidade que os Estados Unidos haviam deixado em aberto. / COM AFP

 

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