Tom Williams / EFE
Tom Williams / EFE

Juiz acusado de assédio sexual redigiu perguntas feitas a Clinton no caso Monica Lewinsky

Há 20 anos, ex-presidente teve de responder a questionamentos sobre sua relação com estagiária da Casa Branca; professora acusa Brett Kavanaugh de ter tentado violentá-la durante uma festa em 1982

O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2018 | 11h06

WASHINGTON - Há 20 anos, o então presidente americano, Bill Clinton, teve de responder uma dura sequência de questionamentos sobre sua relação sexual com a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky, na época com 22 anos. Algumas dessas perguntas foram redigidas pelo então jovem advogado Brett Kavanaugh. A Comissão de Justiça do Senado vota nesta sexta-feira, 28, sobre a indicação dele à Suprema Corte dos Estados Unidos.

Em uma incômoda coincidência, o agora juiz enfrentou na véspera uma avalanche similar de consultas invasivas por parte dos senadores americanos para avaliar se ele deve, ou não, ser confirmado para ocupar uma vaga na Suprema Corte, em meio a um escândalo sexual.

"Alguma vez esfregou seus órgãos genitais na dra. Ford?", perguntaram a Kavanaugh, em uma audiência extraordinária da Comissão de Justiça do Senado para tratar da denúncia da professora Christine Blasey Ford. Ela acusa o juiz de ter tentado violentá-la em uma festa realizada em 1982, quando ambos estavam no ensino médio.

"Não", respondeu Kavanaugh. "Alguma vez cobriu a boca da dra. Ford com a mão?". A mesma resposta. "Alguma vez participou de algum tipo de episódio sexual com a dra. Ford?". Outro "não". Em muitos momentos da sessão, Kavanaugh demonstrou sua irritação com o processo, o qual qualificou como uma "desgraça nacional".

Trata-se de um drama incômodo e completamente inesperado para a atual era da política americana, na qual o próprio presidente Donald Trump já foi acusado por inúmeras mulheres de conduta sexual inadequada.

Há mais de duas décadas, o procurador especial Ken Starr, designado para investigar as transações financeiras de Bill Clinton, contratou o jovem Kavanaugh para auxiliar na investigação.

Dois dias antes de Clinton testemunhar diante de um grande júri sobre sua relação com Monica Lewinsky, Kavanaugh escreveu um memorando para Starr, afirmando que o presidente não merecia qualquer "alívio" no interrogatório, a menos que "renunciasse ou confessasse perjúrio".

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Ele redigiu dez duras perguntas, várias sexualmente explícitas, para serem feitas ao então presidente. "Se Monica Lewinsky dissesse que você inseriu um cigarro em sua vagina enquanto estava no Salão Oval, estaria mentindo?", escreveu Kavanaugh na nota, publicada em agosto pelos Arquivos Nacionais. "Se Monica Lewinsky dissesse que fez sexo oral com você nove vezes no Salão Oval, estaria mentindo?", era outra pergunta.

Semelhanças

O linguajar utilizado na quinta-feira lembra outro debate no Tribunal Superior que abalou o país em 1991. Durante as audiências de confirmação de Clarence Thomas para a Suprema Corte, sua então assistente Anita Hill testemunhou sobre suas conversas de cunho sexual. "Me contou graficamente sobre sua própria destreza sexual", relatou à época.

Thomas e Kavanaugh foram ambos indicados por presidentes republicanos, graduados na faculdade de direito de Yale e acusados ​​de má conduta sexual. Os dois negaram as acusações.

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Thomas, que foi confirmado para ocupar uma vaga na corte, qualificou os procedimentos como "linchamentos de alta tecnologia". Já Kavanaugh disse que o "circo" envolvendo as acusações contra ele equivale ao "grotesco e coordenado assassinato de um personagem".

Bill Clinton também manifestou seu mal-estar com o interrogatório e disse que eram "perguntas que nenhum cidadão americano queria responder".

Em um dado momento da audiência de quinta, Kavanaugh fez referência ao caso do presidente democrata, quando foi acusado pela Câmara dos Deputados, mas absolvido pelo Senado. A audiência foi um "golpe político calculado e orquestrado", disse Kavanaugh aos congressistas, "alimentado com aparente raiva reprimida pelo presidente Trump e pelas eleições de 2016, e uma vingança em nome dos Clinton". / AFP

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